quinta-feira, 25 de maio de 2017

O sapateado em nós!


Todo ano, ao se aproximar o dia 25 de maio eu fico ansioso. Aquela ânsia de criança que deseja um doce do pai ausente, um presente da madrinha que vem de longe, ânsia de passar a mão na cabeça de cachorrinho novo, desejo de que algo se revele, algo inesperado, súbito, potente de alegria.
Passei o dia de hoje revendo com alegria, rebuscando em minhas memórias o encontro que tive com a arte do sapateado, o compromisso que assumi de forma espontânea e ingênua com a arte que me alimenta de alegrias e desafios cotidianamente.
Lembrei com riso no canto da boca e balançando a cabeça das inúmeras vezes que relembrei sequências de aulas em paradas de ônibus e estações de metrô, muitas vezes fazendo desses espaços verdadeiras salas de ensaio (quem nunca praticou uma sequência de sapateado à espera de um ônibus que atire a primeira pedra). Fortaleza, Rio, Sampa, EUA, Colômbia, África… tantos lugares!
Lembrei também de quando, em 2002 (se não me falha a memória), encontrei em uma sala de reuniões em Chicago nos EUA o sapateador Van Porter, que me viu com os sapatos de sapateado nas costas e me perguntou se eu sapateava, eu disse que sim e me pediu então que o mostrasse. Calcei o sapato e mostrei um pouco do samba que aprendi com Valéria Pinheiro. Aquele momento foi mágico, não sabia quem era Van Porter, não sabia do grande sapateador que ele era e quando lembro que me permiti “ter algo a mostrar” me sinto envergonhado, no bom sentido. Lembrei também das noites de insonia com Lane Alexander em quartos de hotéis ao longo do país, tínhamos mania de procurar espaços em hotéis para um pouco de prática do sapateado e criação de algumas sequências juntos!
O bom da vida é que ela segue e ela segue com um propósito, não segue à toa. Fiquei rememorando as aulas que tive com Acya Gray, Sam Weber e Diane Walker, por intermédio de Lane Alexander que também me ensinou sobre sapateado, vida, generosidade e amor.
Antes de tudo isso lembro uma quarta-feira fim de tarde nos arredores da Praia de Iracema em Fortaleza, no Teatro da Boca Rica o encontro com Valéria Pinheiro, seus olhos famintos a convidar para aulas, ali tudo começou. Ali tudo recomeçou, pois nosso “estar junto” vem de outras vidas. Certeza posta!
Reflito 1: Devemos amar o sapateado como possibilidade, acidental ou não, de encontros.
Cia VATÁ foi minha escola e minha universidade, o sapateado ali desenvolvido lançou-me a auto-desafios cotidianos, provações terrenas de desejos e descobertas que iniciam e finalizam na técnica de um sapateado que se mostra potente e íntegro porque se diz de forma peculiar, organizando o caos que pode ser entendido como reflexo da própria vida. Lugar de construção, trocas, aprendizagens, amores, medos e pequenas confusões. Traçados de vidas que se aglomeram a formar colchas de retalhos que propõem sentido único: a coragem.
Reflito 2: O sapateado agrega, congrega, prega, APEGA.
Atrevimento de dois: Cia. Do Barulho, primeira instância de criação em sapateado com Aspásia Mariana, estudos, tentativas, editais, um Mercado que não mais do que pinhões nos fustigava e cutucava dizendo que ali também havia amor. Partilha, parto, partida.
Reflito 3: Sapatear a despedida também é sapateio.
Entendi desde sempre que o sapateado poderia (sonho com isso) servir como mola de mobilização de pessoas, porque o sapateado é alegre e democrático, sua história vem de resistência a opressões e violações, é negro, é feminino, nasceu pobre e nunca achei justo que se tornasse propriedade de quem tem posses e pode pagar aulas em academias, viagens e festivais. Não. Não deve se manifestar apenas dessa maneira. Me incomoda MUITO que as pessoas o vejam, se infectem dele e ao encarar a realidade de sua aprendizagem (na maioria das vezes dentro das academias) se sintam frustradas. Ouço bastante lamentações de pessoas do tipo “sempre achei lindo, mas nunca pude pagar”.
Sabemos que nós sapateadores temos formações caras, cursos são caros, aulas são caras, viagens são caras, os próprios sapatos são caros, o acesso não se dá de forma simples e não acho que isso seja culpa dos profissionais, na verdade não irei me alongar nesse mérito pois não é esse o objetivo.
Reflito 4: É preciso propor a acessibilidade ao sapateado.
Acessibilidade tem a ver com a possibilidade, possibilidade vem de “possível”. O que estamos a fazer para tornar possível o acesso ao sapateado? Como o sapateado está na periferia? Refaço: Ele está? Acredito que em algumas cidades essa possibilidade aconteça de forma legítima, mas aqui em Fortaleza não há fomento para essa área da dança e isso me inquieta.
Hoje, fim de tarde, eu quis calçar o sapato e ir fazer aula, trocar aula em um bairro da periferia, esse foi meu desejo de hoje para comemorar esse dia tão bonito, súbito lembrei: Não há esse lugar! - Fortaleza é um lugar de não lugares!
Nunca coube, nunca consegui me perceber em Festivais competitivos. Um adendo: O fato de não caber não quer dizer que eu seja contra. Porém, há uma instância de criação para os Festivais competitivos que acho violenta, a perspectiva de me colocar na condição de “ser pior” ou “ser melhor” do que o outro me assusta, pois não acredito que esse lugar seja um lugar confortável, prefiro acreditar que não. Esquizofrenia. Maltrata, exclui, ignora, sem levar em consideração muitas vezes o próprio sapateado e sua história de nascimento, sua ontologia. Assim como a história de vida das pessoas que fazem as escolas de sapateado que competem… longa discussão…
Reflito 5: O que devemos amar é o sapateado em nós, não o prêmio em nós!
Eu serei sempre aquele que, embora calado e tímido, estará sempre na torcida pela popularização do sapateado. Já trabalhei em algumas academias de dança, local também que não me encaixo pois a instância de produção de sapateado em academias tem uma dinâmica produtiva, quantitativa e isso também me agride.
Me agride porque existe uma maneira de fazer sapateado nas academias que não tenho habilidade para executar. Tenho profunda admiração por professores de academias que conseguem montar um trabalho para uma competição por exemplo que deva durar 2 minutos e meio ou algo assim. Não consigo cronometrar o que meu pé quer dizer. Reforço: não estou dizendo que não acho admirável, estou dizendo que: Eu não sei fazer.
Reflito 6: Reconheço o sapateado como a possibilidade de ser inteiro!
Há um movimento no nosso país que tem instigado as pessoas a viverem Cias. De sapateado, isso é muito positivo pois nos faz pensar de forma agregada. Quando pessoas se juntam para sapatear a alegria parece se instaurar, permanece ali uma ambiência fluida de trocas que estão para além do som produzido pelas taps, é de vida que estamos falando ali, não só de sapateado. Isso é bárbaro, isso é de uma potência indescritível.
Eu gostaria de hoje solicitar aos meus amigos sapateadores que em algum momento pensassem suas ações em sapateado em benefício de algum segmento social que não fosse apenas a competição. Pergunto: Como o que fazemos em sapateado pode ser útil a alguém? A população idosa? À população de pessoas doentes em hospitais? À população de rua? À crianças vítimas de exploração de trabalho e sexual? À comunidades carentes de cultura?
Já pensaram em algum momento sobre o que mais podemos fazer com o sapateado que temos? Tenho me inquietado muito com isso e não estou falando de caridade. Abrir espaços, desflorar matas virgens, usar calçadas e praças, sair dos shoppings centers e dos grandes teatros ainda que por momentos breves.
Estou a falar aqui de devolver ao mundo o que o mundo de forma tão generosa nos deu ou que lutamos muito para conquistar. Particularmente ando muito cansado e sem interesse em viajar para dar aulas sem um propósito outro que não seja aquele baseado no princípio da agregação, partilha e entrega, papo.
Reflito 7: Para que(m) eu sapateio?
Devaneios disseminados, sigo pensando e repensando o sapateado como uma forma de estar no mundo, como uma forma de não andar sozinho embora eu reconheça que, aparentemente somos muitos, mas olhando de perto somos bem poucos.
Eu gostaria de hoje poder abraçar aos amigos/ídolos do sapateado brasileiro que encontrei ao longo de minha caminhada, reforço que o desejo pelo encontro é uma constante em meu coração.
Obrigado a Cia. Dos Pés Grandes por ser o motor de incentivo, alimento do meu desejo e da minha alegria, sujeitos cúmplices da partilha deliciosa da alegria e afetos que o sapateado propõe.
Obrigado à Cia. VATÁ, por ser casa, lugar que retorno sem precisar bater na porta ou perguntar se “posso?”
Algumas referências:
Cintia Martin, me encontrou no Rio de Janeiro, papeou, sorriu, abraçou e acolheu, obrigado por você ser sempre tão generosa, ouvinte, atenciosa… obrigado pela sua leveza, passarinho.
Steven Harper, querido, abridor de portas, obrigado pelo TAP in Rio, por confiar no meu trabalho, por ser gentil, por possibilitar tantos jovens a se tornarem professores no Festival que é a maior vitrine do sapateado no Brasil.
Adriana Brunato, pela ousadia da CBS – Cia. Brasileira de Sapateado – tempos lindos e inesquecíveis, não há como esquecer a sua trajetória.
Bia Mattar, amiga, mestra, inesquecível as nossas aulas em Floripa em tempos de paixão, quando tudo era azul, olhos e mar.
Juliana Castro, obrigado por Brasília sapatear… Tribo das Artes… saudades… bons tempos!
Julhiana Garcia… que sapateia um Ribeirão de todas as cores...
Bianca Morena e Luciano Oliveira, gentileza… alegria e luta por um Recife que sapateia.
Lane Alexander, Katherine Krammer, Lynn Dally, Max Pollack, Roxane Semadeni, Acya Gray, Van Porter, Sam Weber all my love to You guys… always… all my gratitude.
Trabalhei com pessoas incríveis, profissionais que tenho imensa admiração, aprendi e aprendo muito com vocês, por isso também agradeço.
Agradeço a todas as escolas de sapateado que me convidaram, que me convidam para ministrar workshops e cursos, não listarei aqui para não correr o risco de esquecer e cometer injustiças.
E não poderia deixar de ser diferente, Valéria Pinheiro, enquanto houver vida haverá nós! Te amo com imensidão de universo e leveza de nuvem. Mãe, amor.





quarta-feira, 10 de agosto de 2016

INCOMPLETO


Clicks de Carol Benjamin.


Estar junto é muito bom, mas dói.
Porque estar junto consiste em aproximação excessiva, transborda riso, transborda suor, transborda adentramentos. Instância de permanência lúcida que legitima loucura.
Sim: Loucura. Porque ser lúcido e não desistir de possibilidades existenciais e modos de vida constitui momentos de loucura… como rasgar roupas e correr pelado, como saltar de braços abertos em aridez, cimento, secura, fratura, cabeça quebrada.
Minhas mãos estão cansadas e trêmulas, minha barriga dói, minha pele queima, perco o sono sem perder os sonhos.
Entre empurrões, desejos, barulhos, frustrações o que há de virilidade aqui se transmuta em feminino, insanamente, como louco delirante endureço entre nós, trago dores nos pés e riso na alma. “Estar junto” tem a ver com perder-se.
É de dança que falo, não de falos. É de dança que me dispo, me visto, escuto palavrões, vejo expulsões, rejeições e nãos.
Surge um buraco em meu peito quando não alcanço, quando não os alcanço. Porque não estar junto me faz perder, escuro, prisão, desencanto.
Nasce em mim alegria quando entro ali – barulho interno de notas erradas – mas também há medo, agonia. Nasce em mim desespero quando há ausência de um, porque ser um é ser parte imprescindível da música que crio.
Muitas vezes eu me sinto como se eu tivesse dois pés esquerdos, braços em excesso e matemática mal apreendida. A dislexia em mim se transforma em apatia, tarde de sono, bolacha com café, olhos de demente, grande, grandessíssima, enorme confusão: tempo, contratempo, volume, intensidade, velocidade, pausas.
Preciso muito dizer que há voz. Eu sapateio falando, eu falo muito, eu falo demais, eu ocupo tanto a minha boca que devido a isso não sei o que fazer com os meus pés. Mas vejo fortemente em nossa dança os pés pesados de um sapateio brasileiro de Valéria Pinheiro, ha aqui também um par de olhos azuis mais azuis do que o céu, referência de um outro lugar. Baião de dois, baião de dois, baião de dois.
Mora em mim grande parte daquilo que mora em nós e embora não haja apego, há querência. Há o desejo de um estado de “ficância”.
Crateús, Monsenhor Tabosa, Caucaia, Guaramiranga, Maracanaú, Juazeiro do Norte, Fortaleza, Araripina… tudo é Nova Iorque, tudo é grande, tudo tem eu e tudo tem a mim! Cidades visíveis, arquitetura de nosso dançar.
Dudu “O Grande príncipe que traz fartura: ARO ALADE OLA, Rodrigo o empresário, Edson o Vendedor, Pedro Professor, Heber Diretor, Maurício Músico, Henrique Professor, Fábio Comunicador, Adonai Produtor, Paulo Flor, Aspásia Amor, Carol Torpor, Valéria Pinheiro Jequitibá, Carcará. Nós em algum lugar.

OBServando


O filme Como estrelas na terra – Toda criança é especial, aborda questões relacionadas a conjuntura da escola na atualidade e à necessidade de aprofundamento de estudo e intervenção no atendimento a crianças com as mais variadas manifestações de especialidades, não só no âmbito educacional mas no âmbito socioassistencial.
O que mais chama a atenção é o filme se tornar ponto de “especialidade” para os expectadores pelo fato de Ishaan ter seus caminhos cruzados com um Professor que conseguiu fazer a leitura da conjuntura em qual a criança estava inserida e assim traçar metas de intervenção que o levasse a alcançar êxitos. Ora, mas não seria esse o papel principal de todo Professor? Estar atento as demandas da sala de aula, saber lidar com as diferenças e assim buscar oferecer uma educação igualitária e justa para toda a sua turma?
O contexto educacional na atualidade se mostra de forma bastante perversa, a política que inclui os alunos com determinadas deficiências não cumpre seu papel de forma efetiva. A política educacional não oferece capacitações e cursos de qualificação profissional para os professores e esses tentam lidar de forma empírica com as mais variadas diferenças em sala de aula exercendo um fazer artesanal, como colcha de retalhos, uma intervenção deslocada de políticas emancipatórias, apenas atuações pautadas em “achismos” e formas supostamente castradoras pois sem saber como lidar com as diferenças e tendo a maioria da turma para fazer caminhar, este, no momento da agonia da transmissão e construção do conhecimento, exige o silêncio, a tranquilidade, a concentração e a calma dos alunos, ainda que a falta desses quesitos sejam da ordem da saúde, da diferença.
Importante ressaltar que um Professor deveria ter acesso máximo a todas as formas de conhecimento que possam fazer com que seus alunos consigam superar as situações opressoras em que se encontram, os preconceitos e discriminações, o racismo, o classismo, o machismo. Percebe-se dentro da escola de hoje um conservadorismo que chega a ser constrangedor, professores falam mal de alunos – que em sua maioria são crianças em desenvolvimento – são fortalecedores dos discursos que reforçam machismos, racismos, e LGBTfobias, isso sem falar no conceito de belo que chega a ser desconcertante pois esse oprime de forma direta a criança e o adolescente. Outro ponto a colocar é a falta de entendimento dos professores da instância da juventude, pois não entendem o desejo dos meninos por usar brinco, piercings, bonés e o desejo das meninas de usarem roupas curtas, jeans rasgados, batons e cabelo vermelho ou de outras cores.
Ao se depararem com essas manifestações de juventude é muito comum que suas falas sejam referidas nos mais primordiais conceitos conservadores e anulantes, pois passam a tratar de forma diferente os alunos. Muitas vezes podemos até ouvir coisas do tipo: “Projeto de marginal”, “Aquela menina com aquele short daquele tamanho, tá pedindo coisa”.
O professor do filme, conseguiu não só observar, mas enxergou seu aluno com suas potencialidades e buscou exercer uma intervenção humanista pois,

“Uma educação humanista libertadora, na perspectiva freiriana, precisa ter como ponto de partida os fenômenos concretos que constituem o universo existencial de nosso povo. E, a partir desse universo, o desafio dialógico crítico converge para a luta em prol das transformações sociais necessárias e imprescindíveis para atingirmos uma vida mais digna, principalmente para os setores sociais que mais sofrem a opressão ou exclusão.” (ZITKOSKI, 2008)


Na educação, os alunos são “o nosso povo” e investir de forma qualificada na intervenção junto as necessidades dos alunos é concretizar o projeto de educação libertadora de Paulo Freire, pois isso incita liberdade, autonomia e independência. Pontos cruciais para se construir uma vida justa, baseada na criticidade, criticidade essa que os esclarecerá escolhas.
É inadmissível que aceitemos a política educacional que ora se estabelece, esta não atende as demandas dos filhos da classe trabalhadora, a categoria dos assistentes sociais deve se aprofundar na discussão do serviço social dentro da política educacional, sabemos e já discutimos incessantemente que existem demandas dentro da escola que se atendidas pelo profissional do serviço social seriam encaminhadas de formas diferenciadas. Mas como traçar pontos de atuação dentro de uma política que no âmbito do cotidiano é excludente e negligente?
Fico a me perguntar: Como acessar dispositivos de ordem prática que possam fomentar atuações de professores como o que vimos no filme? Indo mais além pergunto: Será que é possível tornar professores conservadores em professores como o de Ishaan? Isso teria a ver com processos formativos? E se pensássemos em processos formativos que levassem em consideração os conceitos da Questão Social juntamente aos da Educação? Quem facilitaria esses momentos junto aos professores? Os Pedagogos ou os Assistentes sociais? Os dois juntos será? Eis alguns questionamentos para uma outra discussão.
O fato é que precisamos ressuscitar Paulo Freire, seu pensamento e sua obra, por enquanto percebo uma grane apatia na escola, na educação, nos professores, me pergunto: Onde está Paulo Freire, pois esse que dizem conhecer não é aquele que desejou por toda a sua vida uma sociedade justa e igualitária, sem opressores e oprimidos.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Obrigado Cia VATÁ




Mãos trêmulas, pernas bambas, suor nas axilas, cegueira, visão turva, demência e instabilidade, algumas sensações atravessadas por mim ao chegar na Caixa Cultural para assistir ao Documentário da Cia. VATÁ. Sensações incitadas por emoções que não conseguirei traduzir em palavras, mas que revelam uma enorme gratidão, amor, respeito e devoção ao legado dessa Cia. que me foi casa (e ainda é) desde os meus primeiros passos em dança, desde que decidi abandonar o sertão central e vir para a cidade grande em busca de realizar o sonho de me tornar artista.
Assistir a trajetória dessa Cia. Me fez olhar para a minha própria trajetória como artista na cidade de Fortaleza, mais do que isso, me fez olhar para a importância legítima da atuação da Cia. VATA ao longo desses anos na cidade de Fortaleza. Constato que uma artista comprometida com o seu fazer rompe as barreiras da língua, do lugar, das geografias impossíveis, dos afetos tristes. Não por ser exótico, mas por ter em suas mãos a incrível capacidade de construir obras que dialogam com o mundo, pois falam de afeto, falam de um lugar, de um afeto ao lugar, de um compromisso com o seu povo e com a sua história.
A dignidade de, como diz nossa saudosa Dona Silton, “seguir o intuito” é algo que exige coragem. Coragem não como ausência do medo, mas como a determinação de acordar todos os dias e inventar possibilidades de existência, e quando não conseguir inventar, tratar de reinvenções, buscá-las em dores, amores, alegrias… driblar as tristezas e se vestir de força… talvez seja isso, seguir o “intuito” talvez seja permanecer no limite da loucura e do desespero, pois ser louco é ser transgressor e o desespero traz transbordamentos, instâncias primordiais para qualquer processo criativo.
Valéria Pinheiro é mundana, ave de arribação, antropofagicamente um Carcará, pois quem teve a honra e o privilégio de trabalhar ao seu lado sabe que ela “pega, mata e come”, Valéria come o outro, se alimenta do outro, gosta de saber como, onde e por quê, tem olhos de menina, jeito de menina, curiosa… abre gavetas, folheia livros, meche em fios, sobe em escadas, pega a vassoura, varre, lava, cozinha… e em toda a nobreza de seus gestos eu vejo dança. Isso a faz um ser tão completo que para gestualizar talvez eu precisasse de centenas, milhares de braços para mostrar o tamanho, simbolicamente.
A Cia. VATA está em festa, muitos fomos, muitos somos, muitos seremos, todos passamos e todos ficamos, VATÁ é água corrente de torneira aberta, rio que corre, não há parede nesse açude, não há fundo nesse poço. Há uma grande porta aberta, sempre a espera do desejo de fazer parte, talvez levemos tempo para entender isso, mas sim “fazer parte, cabe a se deixar fazer parte” e esse entendimento é cabível de vida, mundo, lugar, tamanhos.
Dancei mais de dez anos nessa Cia. que me foi Universidade, lá eu amei, ri, chorei, sofri, aprendi… lutei, caí e me reergui. Fui Cabaçal, fui Ancestral, fui Orixá… suspendi, sambei, sapateei. E esse matulão que me foi ofertado está repleto de boas lembranças, impossível narrar aqui das tantas coisas incríveis vividas, as dores, os amores, os lugares, os países e continentes habitados em nossas andanças, mas impossível também não registrar um agradecimento infinito a essa universidade que me afetou e afeta a vida, o amor, o sexo, o entendimento e principalmente a possibilidade do dançar, a coragem cotidiana, o enfrentamento aos sentimentos esvaziados, aos afetos tristes, aos nãos, a persistência na alegria e na própria persistência. Sim, Valéria e a Cia VATÁ são persistência da persistência, um acontecimento de luta e resistência que devemos nos orgulhar.
Desejemos vida longa à Cia. VATÁ, ao Teatro das Marias, ao sapateado brasileiro, particularmente desejo estar vivo para ir às comemorações dos 30 anos de Cia. VATA no Ceará, e mais uma vez assistir atônito, com vontade de chorar alto (pois baixinho chorei em muitos momentos), vir para casa correndo para deitar na cama e agradecer pelas oportunidades que tive, pelos sonhos que realizei junto, pelas conquistas, pelas viagens que me encheram de possibilidades e descobertas, agradecer principalmente o privilégio de através de Valéria poder descobrir a potência do sapateado e a possibilidade de um sapateado que fale de nosso povo, de nossas casas, de nosso país.
Eu te agradeço Valéria Pinheiro, por ter me feito, por ter me empurrado, por ter segurado a minha mão e me levado para o mundo, eu te agradeço o ensino, a paciência, o olhar amoroso, a permanência, a resistência, o alimento e o abrigo, eu te tenho em mim para todo o sempre, você é a maior curuMÃE do mundo!

Com amor.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Sobre TCC


Foto de Delfina Rocha, Espetáculo: Caçadores de PIPA da Cia. VATÁ. Direção de Valéria Pinheiro.









O Projeto Ético Político do Serviço Social demanda da categoria de profissionais, estudantes e instituições formativas o compromisso de construção de uma outra sociedade, pautada em direitos assegurados, justiça social, empoderamento e emancipação humana.
As estruturas nas quais se legitimam o PEP são condicionadas pela afronta do capital, mundialização, globalização e a tendência econômica de teor liberal, a livre concorrência se estabelece como ponto precarizador da atuação do assistente social em seus espaços sócio ocupacionais, pois a categoria sofre, como as demais classes trabalhadoras, as refrações de explorações e da livre concorrência.
Nesse processo, as atuações da categoria correm o risco de se fragilizarem e se transformarem em intervenções rápidas, pragmáticas, imediatistas, referenciadas pelo projeto econômico do grande capital, projeto esse que subtrai direitos, exclui o entendimento de classe social e perpetua culturas de violência e a apologia à culpabilidade dos indivíduos. Segundo Maria Lúcia Barroco, podemos chamar esse contexto de neoconservadorismo.
O serviço social, como categoria profissional, tendo como base o código de ética como consequência do PEP, nos incita e fomenta intervenções profissionais pautadas em pesquisas, estudos, estágios, planejamentos, gestão que vão ao encontro do entendimento profundo e generalista das refrações da questão social – matéria-prima do trabalho do assistente social.
Dessa forma, o Projeto de TCC proposto, pretende dar visibilidade e buscar algum entendimento das estratégias de sobrevivência das travestis que trabalham com prostituição no centro da cidade de Fortaleza no período noturno. Parece-me importante para a categoria que esse tema seja abordado pois percebemos claramente que o segmento social investigado é apontado com referências de estigma, preconceitos, abjeções, tais referências reforçam o conservadorismo e tornam importantes as intervenções no âmbito do serviço social dentro das políticas públicas.
Podemos dizer que são seres que não são reconhecidos como legítimos seres humanos devido a grande falta de informação e do entendimento a partir de uma totalidade. Em sua maioria não frequentou a escola, não desenvolveram sociabilidade de forma a lhes garantirem princípios de autonomia e independência posto que o que se apresenta a priori em seus corpos e meios de vida é a diferença.
Assim, o Projeto de TCC buscará mapear histórias de vidas a partir de estratégias de sobrevivência, e com isso, mapear e sugerir pontos para se pensar políticas públicas no âmbito municipal que possam atender demandas específicas e encaminhar projetos que contribuam no reconhecimento do segmento como seres de direitos, visando a emancipação e as garantias que lhes cabem.
Percebo que a discussão no âmbito das políticas para a população LGBTT ainda se insere em uma instância de pouca visibilidade, são inúmeros os casos de assassinatos, em sua maioria, assassinatos com requintes de crueldade, inimagináveis à genericidade humana. A região Nordeste é a região que atualmente mais comete assassinatos às travestis, gays, lésbicas e Fortaleza sofre as consequências de uma política LGBT fragilizada, quase que subsumida no meio de questões que ao olhar do grande empresariado e da máquina pública, que atende demandas do capital, se perdem em pontuais ações de combate a todas as formas de preconceitos, estamos sujeitos a uma Parada da Diversidade e uma coordenadoria de políticas LGBT que apática, mais viola do que atende demandas.
Pensar formas de enfrentamento a manifestações que anulam o outro como legítimo outro nos demanda conhecer, aprofundar pesquisas e entendimentos. Acredito que os assistentes sociais são imprescindíveis nesse contexto, pois está na história da formação da categoria: É necessário estarmos juntos dos movimentos sociais, da classe trabalhadora e de todos aqueles que sofrem as refrações agudizadas da questão social, eis um ponto a mais a ser observado, uma pedra a mais a cruzar no meio do caminho, uma ponte a mais a ser construída, para isso: Sigamos, como nos disse Carlos Drummond de Andrade “De mãos dadas”.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Na ausência do que sentir, eu digo!

Há uma coisa aqui… Misto de incerteza e medo, presença e ausência. Será loucura? Há um inacabado de estradas a serem percorridas, porém há chinelos quebrados, sapatos sem cadarços… janelas de cortinas fechadas impedindo a contemplação de um horizonte. A dor de uma saudade, a dor de um fim, a dor de um “não me importo” é uma dor seca, rabiola de pipa que não sobe. Menino sem camisa, pés descalços… fome. Existe um incentivo danado à coragem quando medo e incertezas em mim se instalam, através do medo me enxergo e corro a enfrentar o que venha. Através da incerteza eu reflito, autoanaliso, redescubro e crio formas novas de caminhar, estradas densas e por isso convidativas, facão em punho a arregaçar matas virgens, cheirosas, olhos vendados, tato e olfato apurados. A vida se mostra em cada canto de experiência vivida, antes dos cantos existe o anúncio, em forma de lágrima ou de riso o anúncio aponta, informa, dirige, segura em minha mão e me incentiva a atirar-me contra a espada, pular de precipícios, peito aberto, poucos cabelos ao vento, corpo pesa. Eu nunca recuo. Boca seca de hoje é a mesma boca cheia de ontem… beijos secam, palavras secam, comidas secam, água seca(?). Buraco no peito, olhos de zumbi, um nada nas mãos e uma vontade indescritível de um recomeço sem dor, uma outra cidade que não essa e nem aquela, um outro quarto que não aquele hotel, um outro mundo que não aquele que eu pensei ser meu também, sim, eu pensei! Um barulho que não aquele de seu silêncio. Não, frio nunca mais. Teu corpo doce e pequeno, tua mão atrevida entre minhas pernas, boca que me cheira, me lambe, me enlouquece. Há outros caminhos? Há outras paragens? Ultima olhada em tuas fotos, última mão em meu desejo, uma loucura tão sã se estabelece agora. Suspiro (pausa). Água, beber água, trancar a porta do quarto, deitar na cama, levantar da cama, ligar a TV, abrir a janela (mas por hoje não há horizonte) só cortinas. Água, água, água, água. Cigarro não mais, hotel não mais, moda não mais, dentes não mais, ser estrangeiro não mais, incêndio interno, difícil de apagar. Um dia vem atrás do outro e as saudades se fantasiam de carnavais e posts de facebook, mensagens indiretas e frágeis de seres também fragilizados, cinismo explícito, ausência de coragem, sensatez em aridez. Foto em preto e branco. Eu tenho um compromisso com a vida, foi com ela o pacto feito pelo cultivo à alegria, mas por hoje eu o quebro. Por hoje eu me dispo da roupa de guerrilheiro para mostrar um pouco que sou também constituído de fragilidades e inseguranças, mas informo: POR HOJE, SÓ POR HOJE. Porque quando os caminhos mudam a gente tem o direito a tentativa de aprender a andar de uma outra forma, de construir uma outra maneira de andar que não aquela em que tentei segurar a tua mão, como aquela que me fez tímido te roubar um beijo entre carros, gentes, lojas e outros amantes, como aquela que me fez economizar dinheiro para te comprar flores em um dia de chuva, pés enlameados, roupas molhadas mas as flores intactas. Teu riso lindo. Eu não te escrevo, eu não te escrevi, eu não vou chorar. Eu rio ao lembrar de teu riso também tímido, eu rio ao lembrar de teu corpo faceiro provocando o meu, eu rio por te ouvir tanto falar e só pensar em te ter em meus braços, eu rio de tanto que esperamos e nos debruçamos um ao outro em histórias, estórias, danças e até lágrimas, bar fulerage, cidade suja, fumaça, muita fumaça… fumaça me traz a incerteza do que se vê, porque embaça, confunde, irrita os olhos e provoca o desejo de ver de forma mais límpida, há fumaça entre nós, sempre houve. Nós somos o que sobrou da luta entre distância e proximidade, somos um não lugar, pura abstração somos um ao outro, um retrato, um número, uma memória, mas somos. Sim nós somos. Dias atrás sonhei com você, você chegava em uma bolha, algo como redoma, depois você se transformou em sabonete molhado, metáfora mais do que lógica para se falar de nossa estória, porque em mim sempre houve a tentativa de te segurar e você sempre foi uma coisa molhada e escorregadia, água corrente. Nobre, muito nobre não ser água parada, Manoel de Barros já diz que “liberdade caça jeito” e embora eu nunca te tenha sido prisão, a minha liberdade te causa medo do aprisionamento (penso eu!) Fumaça, fumaça, fumaça… que a limpidez nos chegue, que permaneçamos a partir de amanhã alegres, sim, amanhã, porque hoje eu tenho o direito de ser triste, SO POR HOJE, sim eu tenho esse direito. Ah… estou ouvindo o Hélio Flanders cantando “Me acalmo danando” de Ângela Rorô, você já percebeu como essa música é linda?

domingo, 25 de outubro de 2015

"ESCREVO-TE ESTAS MAL TRAÇADAS LINHAS..." Estou há alguns dias movido pelo desejo de manifestar escrita. Essa coisa de escrever sempre vem com um misto de incerteza, medo ou retração, como algo que depois de solto no mundo não mais se prende, não mais se apaga, talvez até se ressiguinifique, mas é lançado, grafa tempo e espaço, vira memória, e depois de virar memória (... calma...talvez não vire memória, refletindo mais um pouco desconfio que não é uma questão de virar memória, porque mesmo antes de sair de mãos e mentes, já é memória.) Não há mais como construir o caminho de volta. Li recentemente, muito recentemente a biografia de minha ex professora de balé clássico Wilemara Barros. (Aqui, nesse inicio de escrita soltei o computador, deitei, bebi dois copos de água, contei meus livros, achei que fosse bobagem escrever, desisti.) Escrever é um ato de partilha, coragem de bicho. Escrever sobre alguém, sobre a história de vida de alguém é cavar espaços para reconhecer o que se é enxergando-se no outro. Refletindo um pouco mais, retomei as mãos o computador, tirei toda a roupa, deitei na cama, pus Maria Callas na vitrola e cuidadosamente fui movimentando me por essas letras que na rapidez da digitação parecia me a movimentação de um balé, um balé de dedos. Nada mais propícios a imagem e a sensação ja que é de dança que se escreve, de quem faz danca, de quem é danca. É difícil definir a razão dessa escrita, mas sei que é preciso escrever, pois essa leitura me inquietou e me mecheu, como água quente jogada em bicho que estava dormindo, como buraco que se abre sobre pés, como casa que cai, como vida que se acaba inesperadamente. Wilemara Barros é uma mulher incrível (me perdoem se parece piegas ou lugar comum a expressão através da qual me refiro a pessoa de Wilemara Barros), mas ao ler a Biografia de Wilemara, a sensação de incredibilidade do ser humano que a habita me salta a alma, me enebria os sentidos e me treme mãos. Garganta seca, nenhuma saliva, nada de cuspe. Conhecer essa mulher fantástica, bailarina de profissão, menina de periferia, ousada, corajosa, não é tarefa muito fácil, pois Wilemara é tímida, fala pouco, observa muito, seu conhecer se confunde com o seu ser, ambos são imensos, como céu. Me sinto nuvem, espaçada... se adjetivo Wilemara como céu, adjetivo a todos que foram e que são seus alunos: nuvens...pois enquanto professora Wila é abarque, possibilidade, faz chover, molha...com Wila eu tambem chovi, ainda que como sereno leve, garoa, gotículas. Lembro com muita nitidez de Wila nos corredores do Theatro José de Alencar na época do Colegio de Danca do Ceará, fui aluno da escolinha de rapazes do Professor Flávio Sampaio que funcionava naquela instituição. A escolinha de Flávio proporcionava aulas de balé clássico para rapazes que tinham o desejo de aprender a técnica clássica. As aulas iniciavam pontualmente as sete da matina, finalizavam por volta das nove, momento em que iniciavam as aulas dos alunos do Colégio de Dança do Ceará, foi nessa época que vi Wila pela primeira vez, foi nessa época também que pela primeira vez tive o privilégio de ser aluno da Diva da dança cearense (não confundamos a Diva da dança Wilemara Barros com as divas do rebolado da world music) fato que me deixou tocado, apaixonado pela danca classica, embora sempre tenha tido a noção de que aquela tecnica nunca seria por mim desenvolvida a contento, pois nunca tive fisico privilegiado, sempre fui um jogador de futebol em se tratando de alongamento e outras possibilidades que a tecnica classica exige. Mas, ainda assim, Wilemara me disse ser possível dançar e através dela desenvolvi muito apreço e paixão por aulas de balé clássico. Mas não é sobre isso que eu deveria estar aqui escrevendo, dessa fase o que me ficou na memória foi mesmo a figura ímpar de Wilemara Barros, o cabelo, a cor, os óculos, os saltos, os mini shorts, as mini saias, as bolsas, o andar, o olhar... e o silêncio... Sim, Wila sempre foi muito silenciosa, coisa de quem sabe demais, coisa de quem tem asas, coisa de quem é céu. Fui coreografado por Wila, música de Tom Jobim, academia Bailart. Nunca pensei que teria em algum momento, por menor que fosse, a confiança dessa magnífica professora em executar alguns passos por ela criados, passos ousados para um sapateador desastrado. Havia um chapéu, um paletó, uma ideia de espaço na cabeça dela, no meio disso tudo havia uma generosa injeção de coragem e incentivo vindo de sua parte. Dessa época, foi essa injeção e construção do possível para uma danca em mim, o que me fez ter coragem de dizer para mim mesmo que eu era uma pessoa de dança. Isso devo a Wila. Quando falo de dança, falo da possibilidade de uma dança outra sem os amados sapatos de sapateado nos pés, que me foram calçado por Valeria Pinheiro. Ao ler a Biografia, revivi, ao falar do DEVIR de Fauller na conclusão do Colégio de Dança do Ceará, reconheci me por muitas vezes acompanhando aquela trajetória, pois estava la, ao lado dos grandes, dançando como bailarino convidado no trabalho de Valéria Pinheiro, dividi as coxias com Wila. Pausa, visto cueca, procuro o programa da noite da apresentação, sei que era amarelo... não recordo o nome do programa. Busco, rebusco... não encontro. Volto para a cama e olho o computador... "jamais enviarei isso para Wila". "Por que Wila é sempre tão doce, atenciosa e delicada comigo? Mas Heber, não é só com você, Wila é assim!" Meus pensamentos. Água, mais água, café, pão, biscoitinhos doces...grito do quarto após me trancar novamente e tirar toda a roupa :"mãe, a senhora pode me fazer um chá?" Tenho a ingênua sensação de que para escrever sobre Wila, a nudez seria uma porta de acesso, porque se Wila é céu, se sou nuvem, se me molho, se Wila me choveu, Wila me deu nudez, me fez tirar roupa e me fez trocar de roupas. Retornando - agora de bruços no chão de madeira do meu quarto, excitado - Ano passado recebi uma mensagem do marido de Wila, meu querido Fauller, pessoa que tenho extrema admiração, que me e uma referência, que me é modelo, que me excita a criar, que me desafia, que me instiga, que me arrebenta. Na mensagem me convida para uma noite de performances em homenagem a Wilemara Barros pelos seus 50 anos de idade no Palco Principal do TJA. No momento achei que era brincadeira, como eu, um sapateador desajeitado, sem muitas possibilidades físicas, iria me apresentar para homenagear a maior bailarina classica de Fortaleza? Não levei muito a sério, até sorri depois de desligar o computador, e naquela noite muito aflito eu não consegui dormir direito. Comecei a realizar que realmente o convite havia sido feito a mim e que eu teria que fazer algo, pois era da Wi lemara Barros que se tratava. Dor de barriga, suor noturno, medo, "o que as pessoas vão dizer?" Por que eu? Organizei minha performance como pequenos bilhetes, coisas que eu gostaria de ter dito a Wila ha muitos anos, desde a época que foi minha professora de balé na escola de rapazes, havia coisas a serem ditas desde a época em que havia me coreografado na academia Bailart, desde a época em que nos encontramos pelos corredores da Boite Divine, desde a época em que foi minha professora na primeira turma do Curso Técnico em Dança... eu sempre tive muito o que dizer a Wila, porque sempre fui muito grato aos olhares, aos entendimentos, aos incentivos que dela vinham não só a mim, mas a todos os que juntos de mim sonhavam em ser bailarinos. Ler a biografia de Wilemara, me fez rever a própria vida, minha trajetória pessoal, artística, sexual e hominidea. Finalizei a leitura aos prantos, olhando as fotos, com as mãos tremendo, soluços me invadindo a garganta, boca aberta no travesseiro, mãos geladas... E me calo, com a certeza e a dívida de muitos dizeres a Wilemara Barros, o maior deles é o de muito obrigado, obrigado por ter sido minha professora, por ter sido minha coreógrafa, por ter me injetado a possibilidade de uma nova danca, por ser tão calada e saber tanto, por ser corajosa, por ter corrido em busca de todo sim que lhe entregaram com o um não. Wi lemara Barros é a própria dança, não faz dança porque é dança. A você minha querida Wila, muitos passos, muita vida, muita música, que minha dança, que também é tua, possa servir a ti sempre que me couber, enquanto tu fores alcançável. Com amor, carinho e gratidão. Heber Stalin