segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Na luta!







Lutar para existir de forma digna, alimentar desejos, abrir desejos, com um facão em punho na noite escura e deserta, abrindo caminhos e fortalecendo a estrada já existente.
Meus olhos saltam ao novo e meu corpo enfrenta a dificuldade com tesão e êxtase.
Estradas longas se cruzam e entrecuzam não para encurtar caminhos, mas para descobrir atalhos que acionam potências.

Meu pé é barulhento, minha mão está sangrenta, meu corpo não desiste, resiste, sendo feliz.

na boca seca uma vontade de dizer "vem".

cantando..."só uma palavra me devora, aquela que meu coracão não diz..."

Dados do livro resenhado:
Título da obra: Corpo e alma: notas etnográficas de um aprendiz de boxe
Nome do autor: Loic J. D. WACQUANT
Editora :Relume Dumará
Número de páginas: 293


Publicado na íntegra 12 anos depois de uma primeira aterrissagem no terreno do boxe, Corpo e Alma: notas etnográficas de um aprendiz de boxe, de Löic Wacquant é um livro instigante. Instigante pelo modo como o autor nos conduz a uma viagem pelo mundo do boxe e pelas sensações corporais produzidas pela sua prática.

Neste livro, Wacquant se vale de vários aportes originais. Em primeiro lugar, adota como ponto de partida nessa pesquisa sobre os lutadores de boxe o “aprendizado pelo corpo” da ordem social. O trabalho também conduz o leitor por um intrincado labirinto de reflexões sobre a construção social da masculinidade e da virilidade entre os boxeadores, e de seus pressupostos teóricos e práticos. Discípulo de Pierre Bourdieu, ele há muito vem lançando seu olhar sobre os homens que entram nessa sangrenta mas gloriosa profissão, desvelando algumas das particularidades do habitus pugilista (Wacquant,1998)[1].

Conhecido por seus trabalhos pioneiros sobre a juventude pobre em vários países, o autor atualmente é professor de sociologia da Universidade da Califórnia, Berkeley e pesquisador do Centre de Sociologie Européenne du College de France. Seus principais temas de trabalho incluem: Marginalidade Urbana, Relações Raciais, Violência e Estudos sobre Instituições Penitenciárias. Possui trabalhos publicados no Brasil como Prisões da Miséria [Jorge Zahar, 2001], Punir os Pobres [Freitas Bastos,2001], Os condenados da Cidade [Revan, 2001]. Integra ainda coletânea A miséria do Mundo [Vozes, 1997], sob a direção de Pierre Bourdieu, com o artigo “A Zona”.

O presente trabalho apresenta análise sociológica e relato, conceito e descrição do cotidiano do boxeador. Um dos méritos do livro é a riqueza do material coletado: duas mil e trezentas páginas de notas sobre o mundo do boxe. E por isso essa obra é uma referência para quem se dedica ao campo tradicionalmente denominado da etnografia urbana.

Os principais pontos teóricos e metodológicos estão detalhados nos três textos que formam o livro 1- A Rua e o Ringue; 2- Uma Noitada no Studio 104; 3) “Busy Louie” nas Golden Gloves, e que passam por três eixos centrais a) os impasses da conversão moral e sensual ao cosmos pugilístico; b) a compreensão do ofício de boxeador; c) os questionamentos impostos pela sua inserção num clube de boxe do gueto negro de Chicago.

Quanto à sua entrada no campo, Wacquant começa afirmando que sua “aventura” de fato começou em 1988, quando procurava um ponto de observação mais acurado que permitisse tocar de perto a realidade cotidiana do gueto, uma investigação que desenvolvia na Universidade de Chicago em colaboração com William Julius Wilson[2], pesquisador negro de origem norte-americana, que se dedicou a estudar, no final dos anos 80, o agravamento das condições sociais do subproletariado negro residente nas áreas pobres da cidade. A colaboração com Wilson abrangia justamente o exame das estratégias sociais utilizadas pelos jovens negros do gueto, objeto original da pesquisa. Talvez por causa disso, Wacquant descreva de modo contundente o “acaso” de sua chegada na academia de boxe situada no bairro de Woodlawn, “um lugar precário e degradado”, levado por um amigo francês e judoca da Universidade.

Dessa “janela”, porém, o autor enxerga a oportunidade de questionar o que chama de visão do gueto como um universo “desorganizado”, e nos lembra que o falso conceito underclass, é analiticamente insuficiente para a compreensão da realidade do gueto. Insuficiente porque sob essa marca degradante estariam circunscritas, de modo indistinto, pessoas em situações muito diferentes, como beneficiários da assistência social, desempregados de longo termo, mães solteiras, famílias monoparentais, criminosos, membros das gangues, drogados e sem-teto.

O desafio de aprender um esporte, dentre todos, considerado o mais exigente, e ao mesmo tempo ser capaz de retraduzir essa compreensão dos sentidos em linguagem sociológica, sem com isso minimizar suas particularidades mais distintivas, foram alguns dos percalços também anotados pelo autor, sublinhando a maneira decisiva como influenciaram no desenvolvimento desta experiência etnográfica. No entanto, são também o que constitui a possibilidade de realização de uma sociologia do boxe. Como observa, mais adiante na página 22, “tudo deve ser feito para escapar ao objeto pré-construído, ao exotismo pré-fabricado da profissão, seus mitos de heroísmo e ascensão social, tão presentes na mitologia sobre as lutas, que trazem a ameaça de excesso de sociologia espontânea”. Por isso, o objetivo de Wacquant neste trabalho foi apreender a lógica social e sensual que informa o boxe, pelo seu lado menos conhecido e espetacular, percorrendo os ritos ínfimos e íntimos da vida do gym, atividade levada a cabo pelo pesquisador inserindo-se na realidade nativa com a qual se confrontou. Durante três anos, Loic Wacquant integrou uma equipe na academia, iniciando-se nos rudimentos do ofício de boxeador e onde cultivou relações de amizade com treinadores e boxeadores do lugar, observando in vivo a gênese social e o desenvolvimento das carreiras pugilísticas.

Para compreender o ofício do boxeador, o desafio e a proposta que Wacquant se coloca é em primeiro lugar tematizar o corpo, não apenas de uma posição distanciada, mas partindo do próprio corpo como instrumento de investigação e vetor de conhecimento. Neste empreendimento, o autor lança mão da noção operativa de habitus, um dos conceitos centrais que preside a obra de Marcel Mauss (1974), desenvolvido anos mais tarde por Pierre Bourdieu, autor que irá ressaltar mais a questão do habitus [ou hexis] como uma forma pré-reflexiva do corpo introjetar as experiências do mundo, transmutando-se em uma “política incorporada”. Desse modo, Wacquant situa o boxe tanto como uma técnica corporal, resultado das montagens biopsicossociais dos atos mais ou menos habituais na vida do indivíduo e na história da sociedade, quanto como uma “disposição incorporada"[3]. Para Wacquant, pôr fisicamente em jogo o corpo nesta investigação consistiu em uma dimensão tanto mais enriquecedora quanto permitiu novas possibilidades interpretativas.

Em A Rua e o Ringue, o texto mais denso do livro, o autor articula três níveis de discussão, bastante imbricados, para demonstrar a aquisição da aprendizagem do esporte: 1) as representações sobre o mundo do boxe, suas “leis” e suas “promessas” 2) a regulação da violência, a cultura da rua e a masculinidade 3) A “gestão” do corpo do boxeador, enquanto uma pedagogia visual e mimética.

Para descrever como se dá o trabalho de conversão ginástica, perceptiva, emocional e mental do boxeador na sociedade norte-americana contemporânea, o autor retoma Émile Durkheim para abordar o boxe como uma escola de moralidade, isto é, como “uma máquina de fabricar o espírito de disciplina, indispensável à eclosão da vocação pugilística" (:32). Assim, desde logo, afirma ser o habitus pugilístico, uma empresa que se funda sobre uma dupla antinomia: uma atividade que parece estar situada na fronteira entre natureza e cultura, mas que exige uma gestão quase racional do corpo e do tempo de modo muito complexo. Uma outra contradição diz respeito ao boxe apresentar-se como um esporte extremamente individual, mas que não põe só em causa o indivíduo, sendo obra da razão prática coletiva e individual. Parafraseando seu mestre Bourdieu, nos lembra da importância do esporte como uma prática corporal que encerra um conjunto de questões teóricas de primeira importância, pois “o esporte é junto com a dança, um dos terrenos em que se coloca com acuidade máxima o problema das relações entre a teoria e a prática, e também entre a linguagem e o corpo” (: 34).

Uma contribuição importante desse estudo é mostrar como é necessária alguma integração sócio-econômica para levar a cabo o regime e a moral do treinamento exigidos para obter este aprendizado. O autor assegura como fundamental uma boa dose de ascetismo físico e mental para enfrentar os desafios do esporte, pendor que os jovens saídos das famílias mais despossuídas têm de desenvolver para ganhar competência esportiva, sob a pena de serem sumariamente eliminados pelos treinadores, os verdadeiros senhores dos templos pugilísticos. Paradoxalmente, as “leis” da disciplina espartana do boxe penitenciam severamente os mais excluídos. Em suma, contrariando a mitologia coletiva sobre os lutadores como seres situados nas escalas mais baixas da hierarquia social, a análise de Wacquant mostrou que o perfil socioeconômico dos pugilistas profissionais é mais elevado que o do segmento mais empobrecido da população masculina do gueto.

Não é fácil escrever sobre os boxeadores sem esbarrar em estereótipos sobre sua “natureza selvagem”, e esse é um dos pontos altos do livro: a forma como Wacquant vai montando episódios que trazem depoimentos desses homens que sacrificam seus corpos, nos oferecem as categorias de julgamento que ordenam o mundo dos afetos e dos desejos dos lutadores entrelaçados à possibilidade de ascensão social - da exclusão e da pobreza ao estrelato, freqüentemente efêmero, mas que ainda assim os instiga a uma vida diferente. A partir de dados etnográficos detalhados, Wacquant descreve, em terceiro plano, a apropriação, por impregnação progressiva, de um conjunto de mecanismos corporais e de esquemas mentais que informa o boxe como ofício do corpo, para além de sua descrição como esporte puramente bárbaro. Diante das questões que dão ao capítulo sua unidade, a gestão do corpo é o tema em que o autor mais se detém. Como afirma na página 78, “as regras da arte pugilística remetem a movimentos do corpo que só podem ser apreendidos completamente em ato”. Somente através disso, pode-se entender um pouco da pedagogia peculiar do boxe, que se faz pela repetição e imitação e, paulatinamente redefine um a um todos os parâmetros da existência do lutador. Disso resulta um saber prático, composto de esquemas corporais, emocionais, visuais e mentais, relacionado essencialmente a um processo rigoroso de educação do corpo, constantemente remodelado segundo exigências próprias ao campo. Não é à toa que o autor assinala como indispensável ao conhecimento adequado do objeto, a apreensão indígena da embriaguez sensorial do boxe, domínio no qual a teoria tem pouca utilidade, uma vez que a compreensão pelo corpo ultrapassa e precede a compreensão visual e mental (: 89). Sua posição no campo tem como base o “abandono”, colocando em xeque antigos pressupostos que tentam focalizar racionalmente uma distinção entre o corporal e o mental, modos típicos de consciência que, segundo Wacquant, estão fora de propósito no universo do boxe, onde não há uma “razão raciocinante”. Por isso, ele qualifica a aprendizagem bem sucedida do boxe, como um processo que se inculca de modo lento, uma sensibilidade pugilística incorporada feita da combinação de disposições quase antinômicas: pulsões e impulsos inscritos no mais profundo do indivíduo biológico no limite do cultural e do selvagem, modificada a cada instante pelo seu agente, embora não inacessível ao cálculo explícito da consciência individual (:119).

No segundo texto, Uma Noitada no Studio 104, o autor nos fala mais detidamente de dois anos de submersão intensa, descrevendo desde uma jornada, reuniões de boxe e festividades em bares do bairro até o comparecimento às etapas dos torneios, lutas e comemorações sociais. Sua contribuição neste capítulo é nos conduzir aos meandros da realidade nua e crua dos pugilistas, seus treinos prolongados, as penúrias enfrentadas como moradores do gueto negro, as privações familiares, sexuais e alimentares vividas por estes seres, suas alegrias e êxtases nas conquistas diárias, enfim a uma descrição densa da história da vida privada do lutador, vivenciando batizados, casamentos e funerais. Aqui ele assinala mais uma vez que realmente estava lá. A riqueza deste capítulo repousa nas inúmeras transcrições de trechos de seu diário de campo. Surpreende o modo como pôde captar o panorama, os antecedentes e o contexto de onde emergem os pontos de vistas desses homens e os conhecimentos práticos acerca desse ofício. Trata-se do testemunho de um pesquisador que participou do cotidiano da Rua 63, a ponto de lançar dúvidas sobre sua verdadeira missão ali como sociólogo. É o que demonstra o comentário de seu companheiro de treino duro (sparring) Curtis, que se espanta ao ver o pesquisador agindo como tal, tomando notas em seu diário e usando o gravador: “um dia, você vai se suicidar Louie, porque você escreve demais”. Na noitada do bar Studio 104. Wacquant pôde também compartilhar de um contexto cultural específico da sociabilidade da classe popular afro-americana, com direito a conversas furtivas sobre mulheres, brigas, boxe, prisão, futebol americano e rap music. Isso ocorreu graças aos longos anos em campo que forneceram os fios com os quais teceu a camaradagem com os companheiros deste circuito.

O terceiro texto Busy Louie, descreve passo a passo sua preparação e a apresentação na temporada de 1990, em um campeonato importante, o Chicago Golden Gloves. Para este evento nosso sociólogo boxeador condicionou, ao longo de sete semanas, suas costelas e sua mente para agüentar os treinos duros, deixando que seus parceiros o golpeassem centenas de vezes. Segundo Wacquant, só um raro estado de corpo e mente permite a um ser humano empreender tal atividade. Não se consegue isto por um simples estado de vontade. Só isso o fez compreender o que realmente significa preparar-se para um combate: dia após dia, submetendo-se aos rigores intratáveis e incontornáveis do treinamento. E este pode ser comparado a um verdadeiro ritual de mortificação, ao modo de uma religião em que o sacrifício é a palavra de ordem (:272). O resultado desta luta de muitos meses, não significa propriamente o final, segue sendo um desafio à imaginação, à originalidade da pesquisa, e serve como modelo de prática etnográfica.


Dividindo um pouco do meu lugar nesse momento! se naum vale pelo lugar em si pode valer pela leitura e pelas conexões sugeridas.

saudade boa.

Me deu uma saudade disso,

me emocionei revendo... deu vontade de repetir.

http://www.youtube.com/watch?v=Ynt78soWM20

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Do que me passa ( camisetas rasgadas, pés cansados)


teria muito o que escrever, em dias de olhares focados em mim mesmo de mim mesmo por eu mesmo, percepcao em zoom. Sensacão de estada mais do que de ida, sensacao boa, desestabilizante.
Olhar para o lugar do desconforto e me transportar para o tal, parece que o mundo me chama, um convite eu escuto, um convite eu canto.
o lugar do medo é o lugar de onde se olha para o umbigo, tentativa de descobrir uma outra forma de falar do que doeria, do que machucaria, do que faria chorar.
E Rimos, sorrisos largos de meninos, agressões, formas de dizer e fazer parte. Comunhão pederastia, pornografia.
Projeto em comunhão, cartas, falas, musicas, tenis, boxe, luta, Santos, Imagens, risos, cansacos, olhares, testas, barrigas, pesos... amor. corpogaydade.

prometo voltar logo.

Pra reforcar:

"existir é como respirar, só que mais silencioso"

"Cada ser humano tem uma história de vida inacreditável"

"O amor e uma grande coincidência"

domingo, 12 de setembro de 2010

DAS TURBINAS DO CORPO ( TREINAMENTO, CIDADE, CAPITAL)




É no cerne do território-cidade e na ação do capital sobre ele que se faz pertinente para mim traçar possibilidades de diálogos entre práticas e formas de habitar com/no corpo.
O que se estabelece a priori como formas e modos de fazer dança na cena contemporânea hoje talvez seja – em primeira instância - um punhado de ideias que se manifesta de forma organizada, sistemática e contínua de inquietações, que a verbalidade não consegue dar conta. Talvez por isso mesmo o dar a ver de uma arte do corpo esteja recheada de elementos que deixam o expectador confuso, desconfortável, incomodado, desestabilizado, como se a “coisa” no momento do acontecimento da obra instalasse um momento de rebeldia, de manifesto, de provocação, apologia da necessidade de se fazer/praticar arte. Aqui, por vezes a relação de partilha se compromete, considerando que o que se entende como arte contemporânea não é ainda do domínio do tátil para aqueles que habitam um lugar que funciona na lógica do sistema, o capital.
O que se perde e o que se ganha na produção da arte contemporânea, na imposição de lógicas de existir? Onde o ganho e a perda se encontram e como se complementam? Será que o ganho e a perda acontecem no campo da Formação? Como o capital determina a Formação e como nos defendemos de recortes que reproduzem o discurso do capital em nossas produções?
O momento privilegiado do estar junto para se pensar dança, ou qualquer outra instância onde se estabeleça um discurso de/em arte contemporânea, parece que surge cada vez de forma menos potente. Observa-se no cenário das produções de dança contemporânea do país um escasso número de trabalhos que tem como ponto primordial para sua efetivação a grupalidade. As companhias de dança dão lugar cada vez mais à proliferação - muito bem-vinda- de trabalhos solos, duos e pequenos grupos. Talvez seja um indicador de como a lógica do capital proporciona apartes, separatismos, individualidades que proporcionam a eficiência de uma sozinhez e a permanência nela, como possibilidade de existência enquanto artista. Observar tal trajetória é constatar que algo está mudando e constatar também que o capital tem grande influência no campo da produção artística.
Para além do campo do afeto existem espaços e instâncias onde o sistema se manifesta em voz alta, plenificando e fortalecendo processos outros de composição, habitares que dão lugar ao efêmero, que por sua vez conversa diretamente com a problemática do que se institui como sociedade de consumo. A plenificacão de estados de sozinhez conversam com tal lógica. Investigar tal relação de perto é ficar atento para formas de desestabilizar um não-possível.
O projeto de encontros do Tecido Afetivo trouxe discussões que fazem refletir sobre esta questão, assim como fez elaborar questionamentos sobre formas de diálogos entre o capital e fazer artístico. Quando pensa-se, por exemplo, na questão da formação de bailarinos, fica a dúvida se a ação proporcionada à dança que se faz hoje tem o poder de desalienar aquele que a pratica e também no sujeito que está na posição de receptor/colaborador/plateia. O que nos motiva e o que nos faz agir em nossos processos de criação? O que está para além do Capital? O que nos instiga a criar possibilidades de existência como artistas, mesmo sabendo que um futuro com acúmulo de capital provavelmente não será uma realidade? Como estabelecemos discursos críticos sobre habitar um mundo regido pela lógica do capital, sem fortalecer a relação dominantes x dominados? Estamos atentos a essas questões?
Se focarmos o bailarino, por exemplo, e analisarmos sua forma de estar no palco/museu/local de apresentação, sua presença está comprometida-atravessada por tudo o que lhe é exterior. É possível então pensar num fazer artístico criticizante que manifeste discordâncias inclusive com o nosso fazer no acontecimento da obra? Como esse corpo é turbinado? Como ele se presentifica? É turbinado de que? Se presentifica aonde? Essas questões talvez não encontrem respostas imediatas, não se manifestam isoladamente, como coisa que surge de um “self”, tais questões talvez sejam consequências do esgarçamento de viver no limite do “ter que se fazer presente” e do “ter que fazer turbinado”, imposições do sistema, muito mais do que exigências de competência artística.
Fortaleza, geograficamente, fica em uma beira de mar, de região, de atenção político-social, de abismos. A problemática social da cidade se esgarça de forma trágica: assaltos, assassinatos, drogas, transtornos mentais, prostituição. A riqueza da cidade está dividida entre algumas famílias de classe alta, que detêm a concentração de renda. Vivemos em uma cidade onde os privilégios são para pouquíssimos. O movimento da dança na cidade também se assemelha ao recorte de poder estabelecido pela sua geografia territorial-capitalística. O fazer dança em Fortaleza ainda encontra-se marcado pela prática nas academias, que direcionam também um dar a ver específico. Aqueles que saem de tal condição para experimentar outra forma de se praticar dança chega impresso de valores estéticos e sociais. Na maioria das vezes o diálogo com a dança contemporânea não se dá de forma confortável. Processos solitários de desestabilização se constituem, provocando a revisão dos conceitos e desmistificando pré-conceitos sobre a prática da dança que prescindam de espelho, sapatilha e linóleo.
O que se modifica em nós quando nos propomos essa descoberta? Ainda falamos de estranhamento, ao optarmos por pés descalços? O que determinou o desuso das sapatilhas de ponta, sapatos de sapateado, tchutchu? Em Fortaleza podemos perceber que quem tem dinheiro se familiariza mais facilmente com diversas técnicas de dança, enquanto quem não tem, como fica a espreita de oportunidades eventuais, cursos livres, workshops e projetos sociais que fomentem o trabalho em dança. O que sobra - a boa sobra – é o desejo de se presentificar na dança. E até aqui o capital se manifesta, limitando possibilidades, fomentando seleções competitiva e editais.
Como então traçar planos de trabalhos que provoquem afetos, que desestabilizem a lógica do impossível? Como pensar em uma não-presença que turbine a presença? E o que se estabelece como presença nessa lógica capitalista? Como não ser leviano?
Não quis fazer citações de Marx, Engels, Gadotti, Ivo Tonnet... Paulo Freire disse em algum lugar “o mundo não é, o mundo está sendo”. Estou tentando acompanhar o mundo, tentando entender por onde ele vai, fazendo minha crítica, ainda que calado, atravessado, mais sentido do que ofensivo, mais gente do que bicho, lutando internamente, estou tentando ser um “sendo”.
Um amigo outro dia me disse uma frase que me emocionou bastante, falou que estava quieto porque estava incendiando por dentro, tendo um incêndio interno, esses incêndios ninguém consegue ver ou apagar, nem sentir o cheiro do queimado, aquilo ficou em mim, achei bonita a imagem, assim como a achei dolorosa... quase que fez chorar, calei.
Pensar e sentir como um incêndio interno me parece lógico, a gente passa muito forno, quintura, secura na lida diária em nossos afazeres que se propagam externamente, para o mundo e com o mundo, o que vaza disso é o encontro, o mínimo de contato, as vezes como espinho que fura o dedo do pé, miudinho, mas faz ver. Fazer incendiar possibilidades, encontros, discussões e afetos parece também lógico e genuíno, pois isso escapa ao dizer, escapa ao tocar com as mãos, não se molha nem se queima.
Talvez o incêndio interno seja o que me turbina, e talvez o que faz o fogo crescer seja a resistência, que eu não me perca, que eu não desista, que não nos percamos, que não nos desistamos.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

aquele homem




Aquele homem (que tinha mania de agir como um menino) morria de medo de avião, tinha medo de muitas coisas: de não ter dinheiro, de não conseguir mostrar suas capacidades, de ficar no ostracismo, de ser esquecido pelos que o admiravam, tinha medo de se perder geograficamente e vividamente, se se mostrava forte era apenas para disfarçar silenciadamente a fragilidade que por vezes se apresentava como fraqueza.
Tinha nas mãos calos, na cabeça muitas idéias, no coração aberturas internas e no corpo fogo, chama, quente, a voz era pouca, tinha medo também de falar.
Andava sempre muito rápido, talvez com medo de que algum conhecido o reconhecesse na rua e o convidasse para um papo espontâneo sobre coisas que poderiam ser fúteis ou bobas demais, ele não se permitia o livre e a desobrigação, era carregado de responsabilidades que para ele eram a coisa mais importante da vida, embora aos olhos dos outros essas mesmas coisas fossem apenas o natural. E talvez aí morasse toda a sua angústia – Ele não sabia o que era o natural – a cada “novo tempo” que se iniciava perdia a noção do quando, do onde e do por que. Tinha várias questões, mas aparentemente só a ele próprio faziam tais questões alguns sentidos. Tinha medo de se tornar um homem triste e fazia da vida um eterno estímulo ao riso.
Caminhando em cidades desconhecidas (sim, ele viajava muito!) olhava para todos os lados querendo descobrir o que se escondia atrás de qualquer mínimo, atrás de qualquer corpo, atrás de qualquer possibilidade que se apresentava como coisa possivel-a-ele-também, tinha medo de não fazer parte, isso ia e vinha em sua cabeça como o palpitar de um metrônomo em trabalho.
Precisava sair, fugir, ou voltar para o lugar de onde surgiu, precisava fazer o caminho da volta para tentar achar o caminho para onde seguir, era perdido as vezes, grosso as vezes e extremamente dócil e sensível em umas outras vezes, não tinha amores certos, sua capacidade de amar era como a de amarrar e desamarrar cadarços, passava sempre por entre seus dedos, e pra ser mais sincero, ultimamente não estava usando sapatos com cadarços, preferia as sandálias ou os pés descalços.
Acreditava que uma hora acordaria do mundo sonhado no qual permaneceu adormecido por um tempo e escovaria os dentes mais como uma ação da vida cotidiana do que como uma necessidade fisiobiohigiênica, tomaria café mais com vontade do que com uma necessidade de se manter de barriga cheia, leria livros mais como um descompromisso do que um compromisso faria poesias, beijaria de olhos fechados, faria sexo de forma mais profunda e calma, como se não fosse uma máquina (era assim que os amigos, paqueras, rolos e outros adjetivos que preenchem a cama o chamavam e o conheciam, sim! Ele era bom de cama)
Sabia de suas necessidades de mudanças, sabia de sua in-maturação, sabia de muitas coisas. Sabia inclusive que não sabia de nada. Lia Filosofia, adorava falar de Aristóteles: ”O ser se diz de muitas maneiras” e se apegava a essa máxima para justificar suas caminhadas errôneas, seus fracassos de percursos, seus desejos mal saciados. Não era de todo ingênuo ou burro, era astuto e talvez por isso gostasse tanto de cachorros e gatos, eles também o são.
Gostava de chocolate e nunca resolveu sua relação com o cigarro, as vezes gostava de mulheres, era ciumento e possessivo, mimado e não entendia porque não tinha tido um filho com sua primeira e única esposa. Suspeitava das pessoas que o amavam, era inseguro nas relações, bebia muito, se alegrava imensamente no momento da embriaguez, cantava, falava bobagens e beijava e abraçava excessiva e inconvenientemente todos ao redor quando a sobriedade o abandonava, era engraçado, fazia caretas e mungangos.
Aquele homem não quer mais existir em tais condições, existe uma minhoca esperando um casulo dentro dele, liberdade e aceitação ele precisa entender, também precisa entender que o mundo é um eterno gerúndio e que palavras vêm e vão, discursos vêm e vão o tempo inteiro, não há tempo, não há tempo.
Cansado de reclamar para si mesmo procurou um papel, escreveu longas horas e depois releu pensando no que as pessoas o diriam se tivessem acesso a tais escritos, achou ridículo, riu sozinho com olhos fechados, olhou para o casaco no sofá daquele apartamento naquela cidade fria, abriu a janela, respirou tão profundamente que o frio entrou-lhe o corpo inteiro pelas narinas, resolveu dar uma volta... acendeu um cigarro, caminhou por horas e regurgitou todos os medos e as angústias, pensou várias vezes sobre que horas deveria sair de casa em direção ao aeroporto.
Como de costume chegou 5 horas antes do vôo, (tinha medo de avião, mas tinha mais medo de perder o vôo), procurou um lugar para fumar. Acabou o cigarro. Olhou mais uma vez para aquele universo de tantas diferentes gentes, se sentiu feliz, olhou-se no espelho da porta automática e achou-se elegante, adentrou o aeroporto, pegou a fila do check in e se preparou para um novo recomeçar, apostando que em algum momento tudo seria um pouco diferente, embora o que o esperava fosse ainda tudo igual, do mesmo jeito, do mesmo tamanho. Acreditava na possibilidade do mesmo, o lugar comum também oferece algumas possibilidades – foi o que pensou por último. Lembrou que detesta avião e súbito esqueceu tudo o que havia pensado.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

naum sei


Tenho vivido dias de não acreditar, uma sucessão de fatos me desestabilizam, me transferem de eixo, me tiram a sustentacão. o mundo é um urgir imediato.
acompanhar parece sofre, parece nao caber, a vida não cabe, não se tem tempo para viver!

vendo um filme de Capra fiquei com a frase na cabeca...

Life feels it self!