domingo, 24 de maio de 2020

Anotações para um 25 de maio: Inquietações, percepções, suposições e outras questões




1. Acolhamos uns aos outros

Estou há exatos 80 dias sem calçar o sapato de sapateado. Tempos difíceis esses, em que nos damos conta do pesar de tais contagens. Tenho contado também, entre perdas e ganhos, a quantidade de árvores que vejo através de minha janela, a quantidade de plantas espalhadas pela minúscula varanda do apartamento, a quantidade de cds ainda restante nas estantes de meu quarto, a quantidade de livros lidos, o dinheiro, o que a falta do dinheiro me impede de contar. Tenho contado vidas e mortes, desaparecimentos, violações, tenho contado idas e vindas, nesse mesmo tempo tenho contado esperanças. Assim têm sido os dias.
Durante esse período de isolamento, na solidão frutífera de meus espaços, todas as vezes que a boca seca, as mãos gelam e os pés se inquietam, eu tomo água; caminho um pouco em círculos; deito no chão; mãos ao rosto. Paragem. Súbito o som do ventilador de teto do meu quarto inspira música, em pé novamente trilho o circuito do que me é possível mover. Repito. Repito algumas vezes e em instantes isso também se exaure.
Sento… pés descalços no silêncio do quarto, arranho o chão em contagem simples e direta de shuffles, taps. Balls. Crio imagens, produzo sensações de um estágio de vida que se faz presente na ausência do possível necessário. Falo do possível como uma necessidade de vida, de impulso, de movência, querência, essência. OBS: Gosto demais de palavras que após seus radicais sucedem “ência”. Já perceberam como são lindas? (Pausa).
Esse texto deveria dar conta de uma escrita sobre a comemoração do dia internacional do sapateado, o 25 de maio. Deveria, no momento não estou certo de que será possível.
Me perco entre imagens, memórias, textos, livros, chapinhas frouxas, cadarços quebrados, sapatos descolados… um emaranhado de vida que legitima uma existência transversalizada por outras mil vidas… aqui, entrar e sair; passar e ficar; observar e desacreditar se misturam entre si amalgamando sentires e causando impressões inenarráveis de frustrações, feridas egocêntricas cicatrizadas e a necessidade mais do que permanente de seguir, porque quando penso em sapateado, claramente me vêm a mente e ao corpo uma rajada de coragem, persistência ( já falei que me amarro na “ência”), ousadia e paixão. Levanto um pouco, olho pela janela, após refletir um pouco mais escrevo.
O corpo sente, o ouvido sente, o pé sente. Contestação lógica, óbvia e até boba para qualquer sapateador, no entanto, o fluxo do sentir considera também a constatação da urgência do movimento, este se dá nas mais diversas facetas, das mais variadas formas e com isso produz os mais diversos sentidos. Os meus sentidos, em dança, estão ligados muito menos ao sapateado do que às pessoas que me são cúmplices nesse fazer. Atrevo-me a lançar.
Penso a prática do sapateado como um fluxo de produção de “modos de vida” que legitima existências levando em consideração o modo de pensar e ver o mundo em uma relação muito menos estética do que ética. Talvez porque a forma como sapateamos seja uma forma inerente de se dizer de si e do mundo criando pontes e alianças entre pares e ímpares que se permitem – embora existam diferenças entre si – ainda que por alguns minutos de aula, ou de espetáculos, estarem juntos e ocupados em um só propósito.
É uma modalidade de dança que, a grosso modo, parte de um e vai agregando outros. Constitui coletivos e grupos cujo o principal mote de mobilidade é a cumplicidade com a qual decidem vivenciar, saborear o momento presente, o momento único de realização de determinado som ou sons, em determinado lugar, em determinado dia e hora, ou não! É a própria arte em acontecimento.
Penso o traçado artístico de coreógrafos e bailarinos\sapateadores com Heidegger. Para esse filósofo alemão, no tocante a arte, todo ensaio, toda aula, toda tentativa de se chegar a um resultado estético, já é o próprio acontecimento artístico. Em Heidegger, ensaios, aulas, rascunhos… são as verdadeiras obras de arte, posto que, o ser, em Heidegger, não existe no estático, é no gerúndio que se dá o verdadeiro acontecimento artístico. Estamos sapateando, estamos ensaiando, estamos doando, estamos compondo, estamos optando, com isso estamos fazendo arte! Mergulhando em Heidegger fui me descobrindo, me buscando. Continuo estudando Heidegger, permanecendo.
De onde vejo, constato: (pode parecer mais uma constatação óbvia) – há sempre uma fala, um discurso quando sapateamos. Seja na organização da coreografia, na ordem de entrada dos sapateadores em cena, na escolha da música, na opção de ensaiar mais e até mesmo na opção de ensaiar menos. Ouso dizer que se escolho, falo, opto! E isso constitui discurso, organiza cena e amplifica o que implicitamente dizemos quando estamos no palco (seja ele de que natureza for) ou na sala de aula. Namorando a filosofia paquero com Aristóteles: “O ser se diz de várias maneiras”. Assim sendo, respeitemos uns aos outros, respeitemos. Acolhamos uns aos outros, acolhamos!
Respeitemos uns aos outros para além dos currículos brilhantes, cheios de números, prêmios, viagens, nomes difíceis. Não quero com isso dizer que devamos abrir mão de celebrar nossas histórias de vidas, trajetórias artísticas muitas vezes caras e dolorosas, cheias de sacrifícios, barreiras, pedras no caminho e uma imensidão de “nãos” a nós distribuídos de forma gratuita e leviana ao longo do caminhar.
Falo, eis o ponto primordial, de nossa disposição genuína para perceber e acolher o que está ao nosso lado e muitas vezes não conseguimos enxergar, não conseguimos dar a mão, uma palavra, um copo dágua que mate a sede do conhecimento e possibilite parcerias. Na mesma proporção do ensinar, está a proporção do aprender, já nos disse Paulo Freire. Descobrir esse estado de prontidão ao outro é libertador e promove crescimento humano. Informo de forma repetida, porque a repetição é uma forma de realizar “alcances”: Estar pronto ao outro promove crescimento humano.
Penso com o auxílio de Gilberto Gil, metáfora repleta de realidade. Suspeito que, estar à disposição do outro é o ponto de partida para uma relação minimamente bonita, empática e, por que não? inesquecível. Gil nos pede: “Traga me um copo dágua tenho sede, e essa sede pode me matar, minha garganta pede um pouco de água e os meus olhos pedem teu olhar” Pergunto: “O que acontece perto de nós a título de sapateado?” “Como olhar menos para mim e o que eu faço e direcionar o meu olhar para outras perspectivas de colaboração, atenção e acolhimento?” “Como oferecer um copo dágua?” Se essa reflexão não fizer sentido, acredito que sinceramente será preciso repensar o nosso lugar no mundo não é mesmo? suspeito mais uma vez que, em se tratando de arte, seja ela qual for, nunca, mas nunca mesmo deve ser apenas sobre mim. Se assim o for, há algo de errado. Daí a necessidade, de se repensar processos formativos, relações de ensino-aprendizagem, festivais competitivos e uma celeuma de pontos que não cabem ser discutidos aqui. (Pausa pra o café)

2. O sapateado em período de isolamento – algumas questões.

Em tempos de isolamento, parece-me que o zoom para as fragilidades humanas se amplifica…. Literalmente tudo fica maior: medos, inseguranças, saudades, carências, ansiedades, a quantidade de remédios… tudo se amplifica. E com isso a capacidade de se reinventar também se dá de forma amplificada.
Observando daqui (quarto, janela, computador, redes sociais) tenho percebido o louvável esforço de sapateadores pelo Brasil e pelo mundo de se reinventarem através de aulas, cursos, seminários, lançamentos de livros, ensaios, bate-papos sobre sapateado e tudo me parece tão próximo e (por uma questão bem particular) tão distante. Lanço aqui algumas perguntas.
Pergunto porque a intenção é dividir as inquietações, pensar junto: “Conseguiríamos viver sapateando se essa forma que estamos sapateando hoje, através de lives, fosse a única maneira de se manter sapateando?” “O que se perde nessa metodologia de ensino?” “Tem ensino de sapateado nessa metodologia?” “É possível ensinar os primeiros passos através de uma live?” “O que se ganha?”.
Trago aqui a Mestra Cintia Martin para nos lembrar que: “Para se ensinar, é preciso ter consciência de uma série de itens, como: conhecimento profundo da técnica, a história e a origem do sapateado, terminologia correta, noções básicas de anatomia e noções básicas de música. Além disso, muita paciência, disponibilidade, disposição, criatividade e humildade”. (Trecho retirado da apostila TOQUES: VIVENDO, APRENDENDO E ENSINANDO O SAPATEADO). Curiosamente, o título de sua publicação traz memória Heideggeriana.
Quais implicações, a sugestão de Cintia Martin trazem para o atual cenário de ensino do sapateado no Brasil? Seja ele on-line, seja ele presencial? Estamos prontos? É possível? Há outras considerações registradas para as competências de ensino no âmbito do sapateado?
Cá estou refletindo sobre essas questões simplesmente porque: 1. preocupação com um método que me parece humanizado e eficiente que é o corpo a corpo; 2. Caretice minha, assumo e assumo que minha forma de olhar para isso pode ser um problema sim.
Estou na vida, como em Heidegger e como em Martin: vivendo, tentando e aprendendo. Gostaria muito de discutir sobre isso porque me parece bem claro que já existe um mercado aberto para essa metodologia de ensino. Não é uma crítica, busco entender. Quanto mais formas de se fazer chegar o sapateado as pessoas, melhor, para todos nós. No entanto: “Que tipo de sapateado chegaria às pessoas no formato online?”
De todo, acho importante atentarmos para o fato de que existem metodologias diversas, cabeças diversas, pessoas diversas. Seus fazeres dizem muito de si, como já colocado a cima, importa, entretanto, que pensemos em formas de agregar, presencialmente ou virtualmente. Mas insisto, curiosidade mesmo: “É possível? Através do online?”
Acredito na presença física como potencializadora de aprendizagens, porque aprender tem a ver com o olhar, com o fazer junto, com ouvir a respiração, com o manuseio do corpo em algumas situações, com o suor respingado, com o chão dividido, com a troca de sons, com o papo descontraído que acontece ao amarrar de cadarços com o colega ao lado, com a combinação da cerveja logo após e ainda: com a relação intrínseca entre coragem e medo, vergonha e ousadia. Quem nunca tremeu de nervoso em uma sala de aula de sapateado com certa insegurança em executar sequências de aula? Faço um contraponto: no modo virtual, essa insegurança diminui?
Que fique entendido desse escrito que, a intenção não é desqualificar, negar, anular o que o momento de isolamento social nos oferece – eu não teria estudo ou conhecimento suficiente para isso, estou buscando saber – Mas antes de tudo criar conexões entre o que fazemos com o que fazemos e da forma que fazemos. Importa olhar para isso buscando formas de fortalecer outras metodologias e modos de ensinar e aprender, acredito que enquanto professores (em algum momento todos o somos) seja importante estar atento.
No meio da problemática aqui discutida, existe a velha questão da desigualdade do país que exclui alguns alunos por falta de acessos, computadores, celulares, internet… temas e questões para um outro momento. Mas que não fechemos os olhos e os ouvidos para as desigualdades. Elas, mais do que qualquer outra situação, também necessitam de olhar, cuidados, empatia… acolhimento.

3. Celebremos um ano inteiro: É possível, é necessário

Celebremos o 25 de maio. Há muito o que celebrar. O Brasil, grande e diverso traz na sua história do sapateado as marcas de vivências que ultrapassam a lógica do tap dancing americano. O nosso país traz em sua cultura de povos um acervo grande e vasto de sapateios que, se diferenciam do tap dancing americano devido o uso de chapas de metal nas solas dos sapatos por lá usadas.
Bastante polêmica a suposição de que o Brasil é um país que sempre sapateou. Mas observemos: O frevo, o xaxado, o samba, o maracatu, as bandas cabaçais do interior do sertão do Cariri, as danças de reisado, a chula, a catira são danças que por si só têm sapateio, têm sapateado.
Sem desejar reabrir o ciclo das polêmicas sobre a questão, continuo suspeitando que, o que difere nossos sapateios do tap dancing americano é a ampliação do som através das chapinhas de metal. Valéria Pinheiro (Ce), em décadas de pesquisa em sapateado no Brasil, já desmistificou de forma brilhante essa questão, rompendo barreiras e fazendo a América perceber que o sapateado também se legitima de forma potente no Brasil sem ter como parceira fiel apenas o jazz, o lind hop, o blues. Lindo trabalho. Obrigado Valéria Pinheiro.
Importa, importa muito dizer que, no que diz respeito a um “sapateado brasileiro”, não se trata de pegar determinada música: xaxado, samba, frevo, ou outra qualquer e criar uma sequência lógica de passos dentro de uma contagem binária que caiba dentro da partitura musical. Está implicado aqui, o trabalho árduo de pesquisa de movimentos de pés, dinâmicas, volumes e velocidades que dialoguem de forma coerente com a música brasileira. Longo e exaustivo processo, muitas horas de estúdio, muitas horas seguidas com o sapato de sapateado no pé.
Assim como Valéria, outros nomes não menos importantes traçaram ao longo dos anos formas de contribuição para o desenvolvimento do sapateado. Cintia Martin talvez tenha sido a primeira brasileira a se preocupar em registrar dados, metodologias de ensino e conhecimento musical para estudantes. Além disso transcreveu exaustivamente a nomenclatura do sapateado, buscando facilitar o acesso quando ainda não sabíamos a diferença entre um toe drop e um heel drop, suspeito que através de Cintia a gente deixou de falar “ponta calcanhar” ou “pisa pisa”. Obrigado Cintia Martin.
Eu não planejei trazer nomes ou particularizar homenagens porque sempre corremos o risco de ser injustos, mas não dá para falar do sapateado no Brasil sem falar também do Mestre Steven Harper que com seu conceituado TAP in Rio abre portas para sapateadores jovens aprenderem e descobrirem o sentido do sapateado através de aulas com professores, em sua maioria, brasileiros. Bia Mattar tem um papel ímpar na disseminação do sapateado enquanto linguagem brasileira, pois em Floripa foi ela a pessoa que apresentou outra possibilidade de sapateio, fugidia do jazz e do blues. Obrigado Steven Harper. Obrigado Bia Mattar.
É um recorte. Esse escrito não daria conta de agradecimento algum, são muitos feitos que esses profissionais executaram e continuam executando no país para se manter viva a paixão e o fogo, o desejo de realizar sapateado. Precisaria agradecer também a Marchina, Maurício Silva, Stella Antunes, Amália Machado, Christiane Matallo, Flávio Salles (in memória), Kika Sampaio, Luiz Baldijão, Rachel Cavalcanti, Vera Passos, Thiago Marcelino, Flávia Costa. Me perdoem a injustiça de deixar alguém de fora, não é intencional.
Alegrias somadas, passos divididos em aulas, mostras, cursos… há em mim um imensurável desejo de que essas trajetórias se perpetuem. Que o sapateado em nós não morra. Que resistamos frente aos incontáveis nãos que recebemos ao longo da vida, ao longo da carreira. Para isso invoco e convoco aqui as gerações pós-mestres, sapateadores que delineiam um outro tempo de sapateado, traçando pontes, conectando histórias, geografias e pensamentos. Descobrindo fazeres.
Saúdo aos que estiveram em algum momento comigo como alunos ou colegas de trabalho. Hoje celebro também você Giuliano Antônio, Fernando Flesch, Leonardo Dias, Renata Defina, Marina Coura, Dudu Martinez, Melissa Tannus, Cinthia Pequeno, Gisella Martins, Bianca Moreno, Rafaelle Oliveira, Juliana Castro, Juliana Garcia.
Toda a minha reverência à Cia dos Pés Grandes pelas parcerias, pela trajetória, pelo atrevimento e teimosia. Celebro o amoroso sapateado que partilhamos em via de mão dupla, o encontro potente e o desejo infindo de fincar o pé nesse chão duro que acaba amolecendo de tantos afetos. Com vocês o sapateado se faz poesia e acalanto como em um poema de Manuel de Barros quando diz que: com vocês “eu queria crescer pra passarinho”. Obrigado, muito obrigado Rodrigo Silva, Edson Sousa, Henrique Casimiro, Dudu Abreu, Fabinho Vieira, Pedro Júlio Roque, Lucas Teófilo, Rubéns Lopes, Jota Nogueira, Pedro Moreira, Adonai Elias, Anael Guimarães, Mauricio Batuta, Carol Benjamin, Angélica Nunes.
O dia 25 de maio é o dia de aniversário de Bill Bojangles, por seu feito o celebramos e o rendemos reverências inquestionáveis. Por vossas obras, por vossas histórias, por vossos fazeres eu também celebro o dia do sapateado em 08\06; 06\11; 14\1; 11\03; 10\12; 16\07, 26\08; 21\12; 09\11; 06\12; 06\06; 15\02; 30\11; 11\07; 29\10; 24\06; 05\05; 30\08; 21\05; 17\11; 03\05; 13\05; 28\09; 04\08; 19\09; 14\04; 24\11; 12\02; 29\03; 24\01; 31\10; 19\12; 03\03; 14\12; 13\09; 15\05. Dias de nascimento, renascimento, invenção e reinvenção do sapateado brasileiro.
Nesse dia 25 e por todos os outros dias de celebração do sapateado me dispo de pudores, medos, egos e orgulhos, erros e acertos e me rendo com toda gratidão e amor a vocês que escrevem essa história de forma idônea, diversa, bonita e ímpar. Desejo vida-longa a esse caminhar, desejo perseverança. Que sentemos nas pedras encontradas no meio do caminho para melhor pensar como removê-las. Desconfio que a felicidade plena não existe, mas acredito que alegria e coragem nos elevam a patamares de sensações deliciosas, extremas. Sigo com vocês, sapateando para mexer o mundo. É uma alegria fazer parte disso. Cada tempo a seu tempo, porque como nos ensina Clarice: “…em matéria de viver, não se pode chegar antes…”

Evoé, Axé, Obrigado.
Heber Stalin




terça-feira, 31 de outubro de 2017

sendo confuso...


Congregar: Ficar junto, juntar-se, reunir-se, unir-se, juntar-se, ligar-se, misturar-se.
Tenho pensado de forma muito cuidadosa que, uma opção de vida que se realiza no exercício de construção de um “estar junto” diz muito de mundo, de qual mundo se escolheu cultivar, de qual mundo se optou viver. Minto, refaço: diz muito do que tenta-se realizar enquanto vida, tentativa de exercício de liberdades e verdades que se confundem com exotismo, beira, margem, ilusão de ótica que tenta sintonizar, de maneira confusa e violenta, poiesis múltiplas. Para alguns olhares isso é pura loucura, inexistências.
Não. Uma vida não é só aquilo que entendemos como realidade, a vida também é utopia, poesia, ilusão… alegria(?), dor(?). Em um coletivo esse exercer a vida é um turbilhão, confusão de imagens e sons que rimam com desespero e solidão. Porque para ser muitos, suspeito que seja extremamente necessário ser um pouco sozinho.
Importa dizer: querer junto é também querer sozinho. Querer pelo outro gera dor, andar junto consiste também em exercer um pouco de solidão e estranheza, se jogar ao desconhecido segurando a mão do conhecido, se sujar de carvão e pó para fazer uso de sabão e água, suco de limão com doce de leite… o que vaza disso é justamente a capacidade de suportar o peso do outro… algo como resistir junto. Resistir talvez tenha a ver com seralegresozinhodevezemquando. Disso é preciso lembrar. Isso é urgente exercitar.
Tenho medo de relações tempestuosas e demasiadamente intensas… aquelas que o beijo na boca mais parece um pedido de casamento, juras, tesão e gozo em excesso (sem tirar o mérito e a delícia do prazer do gozo), é preciso atenção. Gosto da expectativa, de todas elas… da dúvida de qual roupa usar para um encontro, do anseio pelo toque, do coração acelerado, da música cantada alta de olhos fechados ao pensar em quem tem te tirado o sono mas te aquietado o coração.
Me toma uma impressão de que, relações esvaziadas são relações que não produzem junções. Fico me perguntando o que nos leva a trilhar caminhos e fazer opções por relações que se realizam de maneira aligeirada, imprecisa, sexuada em demasia e extremamente rasas de sentidos. Porta rolante de entradas de bancos. Corrimão de escada… um para todos.
Gozar perdeu o sentido… relações parecem dizer muito de si e de seu tempo pela contagem de gozos, de curtidas em redes sociais, aplicativos de encontros. O mais estranho é: Nos acostumamos a isso, nos sujeitamos… parece-me que uma reflexão mais aprofundada sobre isso nos torna caretas, atrasados… velhos.
Em relações de longa duração… até mesmo nestas, a vida e a permanência parecem se adensar e se ritmar ao passo da indiferença, da apatia, da invisibilidade do outro. O que estamos a fazer quando olhamos para isso e não conseguimos movimento? nos rendendo a contemplação do que está estabelecido como único possível? Não consigo responder! Mas suspeito que é necessário mexer, cutucar, puxar, empurrar, chamar, propor.
Há momentos, e estes são muitos, em que tudo o que é desejo é também desespero e inabilidade de lidar com o que se apresenta como real. Isso causa dor se você se importa, se você olha de perto. Caso contrário a vida segue o rumo manco e mudo em direção a um nada. O esvaziamento de vida, talvez tenha a ver, em algumas situações, com o uso excessivo e a vivência esvaziada de situações que nos sugam, degradam e desumanizam. Sobre isso, urge também, estar atento.
Não se agrega através de descartáveis, agrega-se através de partilhas, construídas cotidianamente, em cantinhos descuidados ou/e em espaços de legitimação do exercício de liberdades. Faz-se necessário olhar para isso, e perceber até onde conseguimos e queremos a partilha, o agregar, o estar junto e tudo o que significa o verbo. Parece bem bobo, mas aviso de forma repetida e plagiada: “As aparências enganam”.
Existe um misto de inquietação e incertezas aqui, lago de águas paradas que juntam paragem e não propõem movimento. Sobre isso e apesar disso é necessário se manter firme, rindo quando possível, chorando quando necessário e produzindo alegrias quando o peito e a boca pedem. Existe também confusão, indecisão, disritmia, caos… imagino o caos como movimentos exagerados e inaudíveis, essa imagem me angustia e me emite tensão.
Não… não estou louco, eu até acredito que esteja bastante lúcido, pois tenho olhado para isso como um garoto que senta abraçando as pernas de frente para o mar e o observa… diferente do lago de águas paradas, o mar é movimento e incita seguir. É disso que se trata, é disso que se vive quando o peito aperta, a mão treme e a sensação de queimação por dentro surge de forma paralisante.
Quebrar as correntes e correr… peito e cara ao vento, pés descalços… talvez assim a voz se movimente aqui dentro e “ais” sejam emitidos… os “ais” são importantes… são palavras mudas que dizem da gente, do nosso lugar, do nosso tamanho, do nosso momento. É importante gritar “ais”. Um “ai” é um testemunho de que dentro da gente ainda existe força, para resistir, para resistir, para resistir. E não esqueçamos, sigamos: sendoalegressozinhosdevezemquando… mesmo que por uns tempos apenas “de vez em quando”.


domingo, 10 de setembro de 2017

Dos dias de Setembro

Aqui dentro… um silêncio ensurdecedor. Tenho tentado nos últimos dias traçar estratégias que me abstraiam do escárnio da realidade. Como um cadeado de chave perdida, me sinto fechado, preso, emCADEAMENTO.
Entro em meu quarto e aparentemente tudo para. Uma sensação de que as almofadas dialogam com a escrivaninha e os tapetes tentam desestabilizar os calçados sobre eles repousados. Como uma grande brincadeira vista apenas em filmes infantis… disso eu sorrio, eu sorrio, balanço a cabeça negativamente sorrindo muito, corro para a cozinha… água, muita água, mais água. De volta ao quarto: Silêncio. Apatia. Segredos nas gavetas, meus barulhos pendurados em uma varanda como a me lembrar que, ainda que haja noite o dia traz riso. Quase pego os tapetes discutindo com os calçados. O que é a loucura? Onde mora a lucidez?
Mãos frias, olhos tristes, ressaca de dor vivida, não só minha, mas minha TAMBÉM, cismo, sou cismado com essa palavra. O “Também” é uma palavra perigosa. Linda… porém perigosa, pois trata de mais um, mais dois, mais três, mais trinta. Fazer parte de um “também” é fazer partilha, é par-tilhar, par – trilhar, par-tir-lar. Nessa ambiência eu me encontro. Ela me interessa. O meu interesse acaba creditando o “Também”. Tudo bem me rendo, preciso de você também! (Aqui sim, duplo sentido).
Em tempos líquidos, cercados de água por todos os lados, me atrevo a não perder a mania de ser inteiro, de ser sólido, mesmo que para isso eu precise, em algumas situações, ser mais do que pedra, precise ser rocha. Afinal… quem disse que o gelo não fere na mesma proporção que uma rocha? Me tome a primeira boia quem nunca pensou estar em sólidos e se viu perdido em águas. Afogado, afundado, encharcado, trêmulo, espirro, tosse, febre… mas limpo… muito limpo! (Aqui estou eu).
Ahhhhhh que vontade de andar de pés descalços em uma rua de calçamento, chupar dindin com as mãos sujas, tirar meleca do nariz e passar na roupa (daquela maneira que a gente faz e que nos enche de prazer), vontade de contar moedas, olhar as estrelas, correr um pouco a passos largos (também fazíamos quando crianças), sentar no meio-fio de pedra e comer broa, desejar um iogurte, imaginar como é o beijo na boca da pessoa desejada. Afirmo: Isso é mais do que necessário.
Hoje pela manhã ouvi um disco do Janeci, em uma das músicas ele solta: “A gente é feito para acabar… a gente é feito para caber”. Concordo com a primeira frase porque a lógica da finitude humana é inquestionável. Acho infeliz portanto a segunda frase, porque se fazer caber é se forçar a algo. Não. A gente não foi feito pra caber. A gente já chegou – ou já deveria ter chego – ao momento em que podemos identificar sem sofrimentos, culpas ou mágoas se cabemos ou não em determinadas situações, em determinados espaços, em determinadas vidas, em determinados empregos, em determinados bares, em determinados corpos, em determinadas sexualidades, em determinadas, determinadas, determinadas, determinadas… e inclusive nas não tão determinadas assim. (Não gente. Eu também não entendi muito!)
Ontem eu chorei, antes de ontem também… uma pela branca me faz chorar, lapsos de lucidez que se manifestam em minha mente me revivendo suor, riso, dentes, tatuagens… agressões delicadas de um amor que é meu TAMBÉM.
Junto ao meu amor eu tento entender o que é o caber, me pergunto de maneira sôfrega o porque da lucidez ser tão necessária em tempos tão sórdidos e caóticos. Onde está a lucidez? Acho que já perguntei, mas me digam: Como ela se manifesta? O que em mim, em nós é lúcido?
Refletindo sobre os primeiros dias de setembro me abato, me arrebato com as desestabilizações por ele propostas, me sinto tapete, me sinto calçado. Um entra e sai de gentes, carnavalesco que sou me visto de folião e abro o coração para as alegrias… algumas efêmeras, algumas apenas de aparências, mas todas potentes, em sua maioria sóbrias, das não sóbrias eu sorrio e tento não violentar a embriagues e nem me violentar ou violentar alguém através delas. Estar embriagado é um fazer parte da vida, da dança, da alegria… todas essas citadas aí acima.
Mania esquisita essa de ser gente. Que coisa mais desagradável essa do sentir, que vergonhoso chorar escondido, que constrangedor querer ser forte quando tudo o que se manifesta é fragilidade. Outra maneira muito feia é a de calar quando se precisa falar, sorrir quando se precisa chorar. Parar quando se quer seguir.
Por aqui eu queria dar alguns recados, pistas que provam, senão o meu amor, a minha intenção de amar. Por hoje eu queria sentar em silêncio e ver a lua, contar estrelas, dormir de rede, segurar a tua mão, te agarrar por trás e dizer que tudo vai ficar bem… porque existe um “para sempre” dentro de nossas possibilidades. Eu queria também poder olhar nos olhos dos que magoei (se eles existirem) e dizer que não foi intencional, que existe um pedaço de mim que é gente, nem tudo em mim é bicho. Dizer aos que me esperam e me esperaram que eu sou pássaro, que tudo que voa, que tudo que tem asa sou eu também… mas eu sinto, eu sinto, eu sinto, eu sempre senti. Eu sou um sentir! Eu sinto. Eu agradeço amor, eu agradeço Paixão e eu agradeço Tesão. Vou continuar te amando… vou continuar cuidando de vocês… eu vou te comprar um DVD porque te amo, eu vou te pagar uma cerveja Porque você me faz bem e eu vou te amar com o tempo, será inevitável… eu vou continuar comprando tua bolacha… aquela que você gostou… porque você se tornou especial para mim… eu vou continuar ouvindo – com restrições – o Janeci, pois você sabe como eu o acho bobo… eu continuarei sendo seu amante… porque a vida nos reservou esse lugar… eu continuarei a te visitar quando me quiseres porque entendi que em tua casa a porta estará sempre aberta a mim e ao meu corpo e meu tesão. Mas entendam: É possível que hajam impossibilidades… nenhum desses atos se legitimam apenas por mim.
Olhando para a almofada amarela da minha cama ela me alerta mais uma vez: Heber, Heber, Heber: Em matéria de viver não se pode chegar antes”.
Quase lúcido…mais água, mais riso… um pouquinho só mais de choro e um dormir juntinho de minha almofada amarela.








quinta-feira, 25 de maio de 2017

O sapateado em nós!


Todo ano, ao se aproximar o dia 25 de maio eu fico ansioso. Aquela ânsia de criança que deseja um doce do pai ausente, um presente da madrinha que vem de longe, ânsia de passar a mão na cabeça de cachorrinho novo, desejo de que algo se revele, algo inesperado, súbito, potente de alegria.
Passei o dia de hoje revendo com alegria, rebuscando em minhas memórias o encontro que tive com a arte do sapateado, o compromisso que assumi de forma espontânea e ingênua com a arte que me alimenta de alegrias e desafios cotidianamente.
Lembrei com riso no canto da boca e balançando a cabeça das inúmeras vezes que relembrei sequências de aulas em paradas de ônibus e estações de metrô, muitas vezes fazendo desses espaços verdadeiras salas de ensaio (quem nunca praticou uma sequência de sapateado à espera de um ônibus que atire a primeira pedra). Fortaleza, Rio, Sampa, EUA, Colômbia, África… tantos lugares!
Lembrei também de quando, em 2002 (se não me falha a memória), encontrei em uma sala de reuniões em Chicago nos EUA o sapateador Van Porter, que me viu com os sapatos de sapateado nas costas e me perguntou se eu sapateava, eu disse que sim e me pediu então que o mostrasse. Calcei o sapato e mostrei um pouco do samba que aprendi com Valéria Pinheiro. Aquele momento foi mágico, não sabia quem era Van Porter, não sabia do grande sapateador que ele era e quando lembro que me permiti “ter algo a mostrar” me sinto envergonhado, no bom sentido. Lembrei também das noites de insonia com Lane Alexander em quartos de hotéis ao longo do país, tínhamos mania de procurar espaços em hotéis para um pouco de prática do sapateado e criação de algumas sequências juntos!
O bom da vida é que ela segue e ela segue com um propósito, não segue à toa. Fiquei rememorando as aulas que tive com Acya Gray, Sam Weber e Diane Walker, por intermédio de Lane Alexander que também me ensinou sobre sapateado, vida, generosidade e amor.
Antes de tudo isso lembro uma quarta-feira fim de tarde nos arredores da Praia de Iracema em Fortaleza, no Teatro da Boca Rica o encontro com Valéria Pinheiro, seus olhos famintos a convidar para aulas, ali tudo começou. Ali tudo recomeçou, pois nosso “estar junto” vem de outras vidas. Certeza posta!
Reflito 1: Devemos amar o sapateado como possibilidade, acidental ou não, de encontros.
Cia VATÁ foi minha escola e minha universidade, o sapateado ali desenvolvido lançou-me a auto-desafios cotidianos, provações terrenas de desejos e descobertas que iniciam e finalizam na técnica de um sapateado que se mostra potente e íntegro porque se diz de forma peculiar, organizando o caos que pode ser entendido como reflexo da própria vida. Lugar de construção, trocas, aprendizagens, amores, medos e pequenas confusões. Traçados de vidas que se aglomeram a formar colchas de retalhos que propõem sentido único: a coragem.
Reflito 2: O sapateado agrega, congrega, prega, APEGA.
Atrevimento de dois: Cia. Do Barulho, primeira instância de criação em sapateado com Aspásia Mariana, estudos, tentativas, editais, um Mercado que não mais do que pinhões nos fustigava e cutucava dizendo que ali também havia amor. Partilha, parto, partida.
Reflito 3: Sapatear a despedida também é sapateio.
Entendi desde sempre que o sapateado poderia (sonho com isso) servir como mola de mobilização de pessoas, porque o sapateado é alegre e democrático, sua história vem de resistência a opressões e violações, é negro, é feminino, nasceu pobre e nunca achei justo que se tornasse propriedade de quem tem posses e pode pagar aulas em academias, viagens e festivais. Não. Não deve se manifestar apenas dessa maneira. Me incomoda MUITO que as pessoas o vejam, se infectem dele e ao encarar a realidade de sua aprendizagem (na maioria das vezes dentro das academias) se sintam frustradas. Ouço bastante lamentações de pessoas do tipo “sempre achei lindo, mas nunca pude pagar”.
Sabemos que nós sapateadores temos formações caras, cursos são caros, aulas são caras, viagens são caras, os próprios sapatos são caros, o acesso não se dá de forma simples e não acho que isso seja culpa dos profissionais, na verdade não irei me alongar nesse mérito pois não é esse o objetivo.
Reflito 4: É preciso propor a acessibilidade ao sapateado.
Acessibilidade tem a ver com a possibilidade, possibilidade vem de “possível”. O que estamos a fazer para tornar possível o acesso ao sapateado? Como o sapateado está na periferia? Refaço: Ele está? Acredito que em algumas cidades essa possibilidade aconteça de forma legítima, mas aqui em Fortaleza não há fomento para essa área da dança e isso me inquieta.
Hoje, fim de tarde, eu quis calçar o sapato e ir fazer aula, trocar aula em um bairro da periferia, esse foi meu desejo de hoje para comemorar esse dia tão bonito, súbito lembrei: Não há esse lugar! - Fortaleza é um lugar de não lugares!
Nunca coube, nunca consegui me perceber em Festivais competitivos. Um adendo: O fato de não caber não quer dizer que eu seja contra. Porém, há uma instância de criação para os Festivais competitivos que acho violenta, a perspectiva de me colocar na condição de “ser pior” ou “ser melhor” do que o outro me assusta, pois não acredito que esse lugar seja um lugar confortável, prefiro acreditar que não. Esquizofrenia. Maltrata, exclui, ignora, sem levar em consideração muitas vezes o próprio sapateado e sua história de nascimento, sua ontologia. Assim como a história de vida das pessoas que fazem as escolas de sapateado que competem… longa discussão…
Reflito 5: O que devemos amar é o sapateado em nós, não o prêmio em nós!
Eu serei sempre aquele que, embora calado e tímido, estará sempre na torcida pela popularização do sapateado. Já trabalhei em algumas academias de dança, local também que não me encaixo pois a instância de produção de sapateado em academias tem uma dinâmica produtiva, quantitativa e isso também me agride.
Me agride porque existe uma maneira de fazer sapateado nas academias que não tenho habilidade para executar. Tenho profunda admiração por professores de academias que conseguem montar um trabalho para uma competição por exemplo que deva durar 2 minutos e meio ou algo assim. Não consigo cronometrar o que meu pé quer dizer. Reforço: não estou dizendo que não acho admirável, estou dizendo que: Eu não sei fazer.
Reflito 6: Reconheço o sapateado como a possibilidade de ser inteiro!
Há um movimento no nosso país que tem instigado as pessoas a viverem Cias. De sapateado, isso é muito positivo pois nos faz pensar de forma agregada. Quando pessoas se juntam para sapatear a alegria parece se instaurar, permanece ali uma ambiência fluida de trocas que estão para além do som produzido pelas taps, é de vida que estamos falando ali, não só de sapateado. Isso é bárbaro, isso é de uma potência indescritível.
Eu gostaria de hoje solicitar aos meus amigos sapateadores que em algum momento pensassem suas ações em sapateado em benefício de algum segmento social que não fosse apenas a competição. Pergunto: Como o que fazemos em sapateado pode ser útil a alguém? A população idosa? À população de pessoas doentes em hospitais? À população de rua? À crianças vítimas de exploração de trabalho e sexual? À comunidades carentes de cultura?
Já pensaram em algum momento sobre o que mais podemos fazer com o sapateado que temos? Tenho me inquietado muito com isso e não estou falando de caridade. Abrir espaços, desflorar matas virgens, usar calçadas e praças, sair dos shoppings centers e dos grandes teatros ainda que por momentos breves.
Estou a falar aqui de devolver ao mundo o que o mundo de forma tão generosa nos deu ou que lutamos muito para conquistar. Particularmente ando muito cansado e sem interesse em viajar para dar aulas sem um propósito outro que não seja aquele baseado no princípio da agregação, partilha e entrega, papo.
Reflito 7: Para que(m) eu sapateio?
Devaneios disseminados, sigo pensando e repensando o sapateado como uma forma de estar no mundo, como uma forma de não andar sozinho embora eu reconheça que, aparentemente somos muitos, mas olhando de perto somos bem poucos.
Eu gostaria de hoje poder abraçar aos amigos/ídolos do sapateado brasileiro que encontrei ao longo de minha caminhada, reforço que o desejo pelo encontro é uma constante em meu coração.
Obrigado a Cia. Dos Pés Grandes por ser o motor de incentivo, alimento do meu desejo e da minha alegria, sujeitos cúmplices da partilha deliciosa da alegria e afetos que o sapateado propõe.
Obrigado à Cia. VATÁ, por ser casa, lugar que retorno sem precisar bater na porta ou perguntar se “posso?”
Algumas referências:
Cintia Martin, me encontrou no Rio de Janeiro, papeou, sorriu, abraçou e acolheu, obrigado por você ser sempre tão generosa, ouvinte, atenciosa… obrigado pela sua leveza, passarinho.
Steven Harper, querido, abridor de portas, obrigado pelo TAP in Rio, por confiar no meu trabalho, por ser gentil, por possibilitar tantos jovens a se tornarem professores no Festival que é a maior vitrine do sapateado no Brasil.
Adriana Brunato, pela ousadia da CBS – Cia. Brasileira de Sapateado – tempos lindos e inesquecíveis, não há como esquecer a sua trajetória.
Bia Mattar, amiga, mestra, inesquecível as nossas aulas em Floripa em tempos de paixão, quando tudo era azul, olhos e mar.
Juliana Castro, obrigado por Brasília sapatear… Tribo das Artes… saudades… bons tempos!
Julhiana Garcia… que sapateia um Ribeirão de todas as cores...
Bianca Morena e Luciano Oliveira, gentileza… alegria e luta por um Recife que sapateia.
Lane Alexander, Katherine Krammer, Lynn Dally, Max Pollack, Roxane Semadeni, Acya Gray, Van Porter, Sam Weber all my love to You guys… always… all my gratitude.
Trabalhei com pessoas incríveis, profissionais que tenho imensa admiração, aprendi e aprendo muito com vocês, por isso também agradeço.
Agradeço a todas as escolas de sapateado que me convidaram, que me convidam para ministrar workshops e cursos, não listarei aqui para não correr o risco de esquecer e cometer injustiças.
E não poderia deixar de ser diferente, Valéria Pinheiro, enquanto houver vida haverá nós! Te amo com imensidão de universo e leveza de nuvem. Mãe, amor.





quarta-feira, 10 de agosto de 2016

INCOMPLETO


Clicks de Carol Benjamin.


Estar junto é muito bom, mas dói.
Porque estar junto consiste em aproximação excessiva, transborda riso, transborda suor, transborda adentramentos. Instância de permanência lúcida que legitima loucura.
Sim: Loucura. Porque ser lúcido e não desistir de possibilidades existenciais e modos de vida constitui momentos de loucura… como rasgar roupas e correr pelado, como saltar de braços abertos em aridez, cimento, secura, fratura, cabeça quebrada.
Minhas mãos estão cansadas e trêmulas, minha barriga dói, minha pele queima, perco o sono sem perder os sonhos.
Entre empurrões, desejos, barulhos, frustrações o que há de virilidade aqui se transmuta em feminino, insanamente, como louco delirante endureço entre nós, trago dores nos pés e riso na alma. “Estar junto” tem a ver com perder-se.
É de dança que falo, não de falos. É de dança que me dispo, me visto, escuto palavrões, vejo expulsões, rejeições e nãos.
Surge um buraco em meu peito quando não alcanço, quando não os alcanço. Porque não estar junto me faz perder, escuro, prisão, desencanto.
Nasce em mim alegria quando entro ali – barulho interno de notas erradas – mas também há medo, agonia. Nasce em mim desespero quando há ausência de um, porque ser um é ser parte imprescindível da música que crio.
Muitas vezes eu me sinto como se eu tivesse dois pés esquerdos, braços em excesso e matemática mal apreendida. A dislexia em mim se transforma em apatia, tarde de sono, bolacha com café, olhos de demente, grande, grandessíssima, enorme confusão: tempo, contratempo, volume, intensidade, velocidade, pausas.
Preciso muito dizer que há voz. Eu sapateio falando, eu falo muito, eu falo demais, eu ocupo tanto a minha boca que devido a isso não sei o que fazer com os meus pés. Mas vejo fortemente em nossa dança os pés pesados de um sapateio brasileiro de Valéria Pinheiro, ha aqui também um par de olhos azuis mais azuis do que o céu, referência de um outro lugar. Baião de dois, baião de dois, baião de dois.
Mora em mim grande parte daquilo que mora em nós e embora não haja apego, há querência. Há o desejo de um estado de “ficância”.
Crateús, Monsenhor Tabosa, Caucaia, Guaramiranga, Maracanaú, Juazeiro do Norte, Fortaleza, Araripina… tudo é Nova Iorque, tudo é grande, tudo tem eu e tudo tem a mim! Cidades visíveis, arquitetura de nosso dançar.
Dudu “O Grande príncipe que traz fartura: ARO ALADE OLA, Rodrigo o empresário, Edson o Vendedor, Pedro Professor, Heber Diretor, Maurício Músico, Henrique Professor, Fábio Comunicador, Adonai Produtor, Paulo Flor, Aspásia Amor, Carol Torpor, Valéria Pinheiro Jequitibá, Carcará. Nós em algum lugar.

OBServando


O filme Como estrelas na terra – Toda criança é especial, aborda questões relacionadas a conjuntura da escola na atualidade e à necessidade de aprofundamento de estudo e intervenção no atendimento a crianças com as mais variadas manifestações de especialidades, não só no âmbito educacional mas no âmbito socioassistencial.
O que mais chama a atenção é o filme se tornar ponto de “especialidade” para os expectadores pelo fato de Ishaan ter seus caminhos cruzados com um Professor que conseguiu fazer a leitura da conjuntura em qual a criança estava inserida e assim traçar metas de intervenção que o levasse a alcançar êxitos. Ora, mas não seria esse o papel principal de todo Professor? Estar atento as demandas da sala de aula, saber lidar com as diferenças e assim buscar oferecer uma educação igualitária e justa para toda a sua turma?
O contexto educacional na atualidade se mostra de forma bastante perversa, a política que inclui os alunos com determinadas deficiências não cumpre seu papel de forma efetiva. A política educacional não oferece capacitações e cursos de qualificação profissional para os professores e esses tentam lidar de forma empírica com as mais variadas diferenças em sala de aula exercendo um fazer artesanal, como colcha de retalhos, uma intervenção deslocada de políticas emancipatórias, apenas atuações pautadas em “achismos” e formas supostamente castradoras pois sem saber como lidar com as diferenças e tendo a maioria da turma para fazer caminhar, este, no momento da agonia da transmissão e construção do conhecimento, exige o silêncio, a tranquilidade, a concentração e a calma dos alunos, ainda que a falta desses quesitos sejam da ordem da saúde, da diferença.
Importante ressaltar que um Professor deveria ter acesso máximo a todas as formas de conhecimento que possam fazer com que seus alunos consigam superar as situações opressoras em que se encontram, os preconceitos e discriminações, o racismo, o classismo, o machismo. Percebe-se dentro da escola de hoje um conservadorismo que chega a ser constrangedor, professores falam mal de alunos – que em sua maioria são crianças em desenvolvimento – são fortalecedores dos discursos que reforçam machismos, racismos, e LGBTfobias, isso sem falar no conceito de belo que chega a ser desconcertante pois esse oprime de forma direta a criança e o adolescente. Outro ponto a colocar é a falta de entendimento dos professores da instância da juventude, pois não entendem o desejo dos meninos por usar brinco, piercings, bonés e o desejo das meninas de usarem roupas curtas, jeans rasgados, batons e cabelo vermelho ou de outras cores.
Ao se depararem com essas manifestações de juventude é muito comum que suas falas sejam referidas nos mais primordiais conceitos conservadores e anulantes, pois passam a tratar de forma diferente os alunos. Muitas vezes podemos até ouvir coisas do tipo: “Projeto de marginal”, “Aquela menina com aquele short daquele tamanho, tá pedindo coisa”.
O professor do filme, conseguiu não só observar, mas enxergou seu aluno com suas potencialidades e buscou exercer uma intervenção humanista pois,

“Uma educação humanista libertadora, na perspectiva freiriana, precisa ter como ponto de partida os fenômenos concretos que constituem o universo existencial de nosso povo. E, a partir desse universo, o desafio dialógico crítico converge para a luta em prol das transformações sociais necessárias e imprescindíveis para atingirmos uma vida mais digna, principalmente para os setores sociais que mais sofrem a opressão ou exclusão.” (ZITKOSKI, 2008)


Na educação, os alunos são “o nosso povo” e investir de forma qualificada na intervenção junto as necessidades dos alunos é concretizar o projeto de educação libertadora de Paulo Freire, pois isso incita liberdade, autonomia e independência. Pontos cruciais para se construir uma vida justa, baseada na criticidade, criticidade essa que os esclarecerá escolhas.
É inadmissível que aceitemos a política educacional que ora se estabelece, esta não atende as demandas dos filhos da classe trabalhadora, a categoria dos assistentes sociais deve se aprofundar na discussão do serviço social dentro da política educacional, sabemos e já discutimos incessantemente que existem demandas dentro da escola que se atendidas pelo profissional do serviço social seriam encaminhadas de formas diferenciadas. Mas como traçar pontos de atuação dentro de uma política que no âmbito do cotidiano é excludente e negligente?
Fico a me perguntar: Como acessar dispositivos de ordem prática que possam fomentar atuações de professores como o que vimos no filme? Indo mais além pergunto: Será que é possível tornar professores conservadores em professores como o de Ishaan? Isso teria a ver com processos formativos? E se pensássemos em processos formativos que levassem em consideração os conceitos da Questão Social juntamente aos da Educação? Quem facilitaria esses momentos junto aos professores? Os Pedagogos ou os Assistentes sociais? Os dois juntos será? Eis alguns questionamentos para uma outra discussão.
O fato é que precisamos ressuscitar Paulo Freire, seu pensamento e sua obra, por enquanto percebo uma grane apatia na escola, na educação, nos professores, me pergunto: Onde está Paulo Freire, pois esse que dizem conhecer não é aquele que desejou por toda a sua vida uma sociedade justa e igualitária, sem opressores e oprimidos.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Obrigado Cia VATÁ




Mãos trêmulas, pernas bambas, suor nas axilas, cegueira, visão turva, demência e instabilidade, algumas sensações atravessadas por mim ao chegar na Caixa Cultural para assistir ao Documentário da Cia. VATÁ. Sensações incitadas por emoções que não conseguirei traduzir em palavras, mas que revelam uma enorme gratidão, amor, respeito e devoção ao legado dessa Cia. que me foi casa (e ainda é) desde os meus primeiros passos em dança, desde que decidi abandonar o sertão central e vir para a cidade grande em busca de realizar o sonho de me tornar artista.
Assistir a trajetória dessa Cia. Me fez olhar para a minha própria trajetória como artista na cidade de Fortaleza, mais do que isso, me fez olhar para a importância legítima da atuação da Cia. VATA ao longo desses anos na cidade de Fortaleza. Constato que uma artista comprometida com o seu fazer rompe as barreiras da língua, do lugar, das geografias impossíveis, dos afetos tristes. Não por ser exótico, mas por ter em suas mãos a incrível capacidade de construir obras que dialogam com o mundo, pois falam de afeto, falam de um lugar, de um afeto ao lugar, de um compromisso com o seu povo e com a sua história.
A dignidade de, como diz nossa saudosa Dona Silton, “seguir o intuito” é algo que exige coragem. Coragem não como ausência do medo, mas como a determinação de acordar todos os dias e inventar possibilidades de existência, e quando não conseguir inventar, tratar de reinvenções, buscá-las em dores, amores, alegrias… driblar as tristezas e se vestir de força… talvez seja isso, seguir o “intuito” talvez seja permanecer no limite da loucura e do desespero, pois ser louco é ser transgressor e o desespero traz transbordamentos, instâncias primordiais para qualquer processo criativo.
Valéria Pinheiro é mundana, ave de arribação, antropofagicamente um Carcará, pois quem teve a honra e o privilégio de trabalhar ao seu lado sabe que ela “pega, mata e come”, Valéria come o outro, se alimenta do outro, gosta de saber como, onde e por quê, tem olhos de menina, jeito de menina, curiosa… abre gavetas, folheia livros, meche em fios, sobe em escadas, pega a vassoura, varre, lava, cozinha… e em toda a nobreza de seus gestos eu vejo dança. Isso a faz um ser tão completo que para gestualizar talvez eu precisasse de centenas, milhares de braços para mostrar o tamanho, simbolicamente.
A Cia. VATA está em festa, muitos fomos, muitos somos, muitos seremos, todos passamos e todos ficamos, VATÁ é água corrente de torneira aberta, rio que corre, não há parede nesse açude, não há fundo nesse poço. Há uma grande porta aberta, sempre a espera do desejo de fazer parte, talvez levemos tempo para entender isso, mas sim “fazer parte, cabe a se deixar fazer parte” e esse entendimento é cabível de vida, mundo, lugar, tamanhos.
Dancei mais de dez anos nessa Cia. que me foi Universidade, lá eu amei, ri, chorei, sofri, aprendi… lutei, caí e me reergui. Fui Cabaçal, fui Ancestral, fui Orixá… suspendi, sambei, sapateei. E esse matulão que me foi ofertado está repleto de boas lembranças, impossível narrar aqui das tantas coisas incríveis vividas, as dores, os amores, os lugares, os países e continentes habitados em nossas andanças, mas impossível também não registrar um agradecimento infinito a essa universidade que me afetou e afeta a vida, o amor, o sexo, o entendimento e principalmente a possibilidade do dançar, a coragem cotidiana, o enfrentamento aos sentimentos esvaziados, aos afetos tristes, aos nãos, a persistência na alegria e na própria persistência. Sim, Valéria e a Cia VATÁ são persistência da persistência, um acontecimento de luta e resistência que devemos nos orgulhar.
Desejemos vida longa à Cia. VATÁ, ao Teatro das Marias, ao sapateado brasileiro, particularmente desejo estar vivo para ir às comemorações dos 30 anos de Cia. VATA no Ceará, e mais uma vez assistir atônito, com vontade de chorar alto (pois baixinho chorei em muitos momentos), vir para casa correndo para deitar na cama e agradecer pelas oportunidades que tive, pelos sonhos que realizei junto, pelas conquistas, pelas viagens que me encheram de possibilidades e descobertas, agradecer principalmente o privilégio de através de Valéria poder descobrir a potência do sapateado e a possibilidade de um sapateado que fale de nosso povo, de nossas casas, de nosso país.
Eu te agradeço Valéria Pinheiro, por ter me feito, por ter me empurrado, por ter segurado a minha mão e me levado para o mundo, eu te agradeço o ensino, a paciência, o olhar amoroso, a permanência, a resistência, o alimento e o abrigo, eu te tenho em mim para todo o sempre, você é a maior curuMÃE do mundo!

Com amor.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Sobre TCC


Foto de Delfina Rocha, Espetáculo: Caçadores de PIPA da Cia. VATÁ. Direção de Valéria Pinheiro.









O Projeto Ético Político do Serviço Social demanda da categoria de profissionais, estudantes e instituições formativas o compromisso de construção de uma outra sociedade, pautada em direitos assegurados, justiça social, empoderamento e emancipação humana.
As estruturas nas quais se legitimam o PEP são condicionadas pela afronta do capital, mundialização, globalização e a tendência econômica de teor liberal, a livre concorrência se estabelece como ponto precarizador da atuação do assistente social em seus espaços sócio ocupacionais, pois a categoria sofre, como as demais classes trabalhadoras, as refrações de explorações e da livre concorrência.
Nesse processo, as atuações da categoria correm o risco de se fragilizarem e se transformarem em intervenções rápidas, pragmáticas, imediatistas, referenciadas pelo projeto econômico do grande capital, projeto esse que subtrai direitos, exclui o entendimento de classe social e perpetua culturas de violência e a apologia à culpabilidade dos indivíduos. Segundo Maria Lúcia Barroco, podemos chamar esse contexto de neoconservadorismo.
O serviço social, como categoria profissional, tendo como base o código de ética como consequência do PEP, nos incita e fomenta intervenções profissionais pautadas em pesquisas, estudos, estágios, planejamentos, gestão que vão ao encontro do entendimento profundo e generalista das refrações da questão social – matéria-prima do trabalho do assistente social.
Dessa forma, o Projeto de TCC proposto, pretende dar visibilidade e buscar algum entendimento das estratégias de sobrevivência das travestis que trabalham com prostituição no centro da cidade de Fortaleza no período noturno. Parece-me importante para a categoria que esse tema seja abordado pois percebemos claramente que o segmento social investigado é apontado com referências de estigma, preconceitos, abjeções, tais referências reforçam o conservadorismo e tornam importantes as intervenções no âmbito do serviço social dentro das políticas públicas.
Podemos dizer que são seres que não são reconhecidos como legítimos seres humanos devido a grande falta de informação e do entendimento a partir de uma totalidade. Em sua maioria não frequentou a escola, não desenvolveram sociabilidade de forma a lhes garantirem princípios de autonomia e independência posto que o que se apresenta a priori em seus corpos e meios de vida é a diferença.
Assim, o Projeto de TCC buscará mapear histórias de vidas a partir de estratégias de sobrevivência, e com isso, mapear e sugerir pontos para se pensar políticas públicas no âmbito municipal que possam atender demandas específicas e encaminhar projetos que contribuam no reconhecimento do segmento como seres de direitos, visando a emancipação e as garantias que lhes cabem.
Percebo que a discussão no âmbito das políticas para a população LGBTT ainda se insere em uma instância de pouca visibilidade, são inúmeros os casos de assassinatos, em sua maioria, assassinatos com requintes de crueldade, inimagináveis à genericidade humana. A região Nordeste é a região que atualmente mais comete assassinatos às travestis, gays, lésbicas e Fortaleza sofre as consequências de uma política LGBT fragilizada, quase que subsumida no meio de questões que ao olhar do grande empresariado e da máquina pública, que atende demandas do capital, se perdem em pontuais ações de combate a todas as formas de preconceitos, estamos sujeitos a uma Parada da Diversidade e uma coordenadoria de políticas LGBT que apática, mais viola do que atende demandas.
Pensar formas de enfrentamento a manifestações que anulam o outro como legítimo outro nos demanda conhecer, aprofundar pesquisas e entendimentos. Acredito que os assistentes sociais são imprescindíveis nesse contexto, pois está na história da formação da categoria: É necessário estarmos juntos dos movimentos sociais, da classe trabalhadora e de todos aqueles que sofrem as refrações agudizadas da questão social, eis um ponto a mais a ser observado, uma pedra a mais a cruzar no meio do caminho, uma ponte a mais a ser construída, para isso: Sigamos, como nos disse Carlos Drummond de Andrade “De mãos dadas”.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Na ausência do que sentir, eu digo!

Há uma coisa aqui… Misto de incerteza e medo, presença e ausência. Será loucura? Há um inacabado de estradas a serem percorridas, porém há chinelos quebrados, sapatos sem cadarços… janelas de cortinas fechadas impedindo a contemplação de um horizonte. A dor de uma saudade, a dor de um fim, a dor de um “não me importo” é uma dor seca, rabiola de pipa que não sobe. Menino sem camisa, pés descalços… fome. Existe um incentivo danado à coragem quando medo e incertezas em mim se instalam, através do medo me enxergo e corro a enfrentar o que venha. Através da incerteza eu reflito, autoanaliso, redescubro e crio formas novas de caminhar, estradas densas e por isso convidativas, facão em punho a arregaçar matas virgens, cheirosas, olhos vendados, tato e olfato apurados. A vida se mostra em cada canto de experiência vivida, antes dos cantos existe o anúncio, em forma de lágrima ou de riso o anúncio aponta, informa, dirige, segura em minha mão e me incentiva a atirar-me contra a espada, pular de precipícios, peito aberto, poucos cabelos ao vento, corpo pesa. Eu nunca recuo. Boca seca de hoje é a mesma boca cheia de ontem… beijos secam, palavras secam, comidas secam, água seca(?). Buraco no peito, olhos de zumbi, um nada nas mãos e uma vontade indescritível de um recomeço sem dor, uma outra cidade que não essa e nem aquela, um outro quarto que não aquele hotel, um outro mundo que não aquele que eu pensei ser meu também, sim, eu pensei! Um barulho que não aquele de seu silêncio. Não, frio nunca mais. Teu corpo doce e pequeno, tua mão atrevida entre minhas pernas, boca que me cheira, me lambe, me enlouquece. Há outros caminhos? Há outras paragens? Ultima olhada em tuas fotos, última mão em meu desejo, uma loucura tão sã se estabelece agora. Suspiro (pausa). Água, beber água, trancar a porta do quarto, deitar na cama, levantar da cama, ligar a TV, abrir a janela (mas por hoje não há horizonte) só cortinas. Água, água, água, água. Cigarro não mais, hotel não mais, moda não mais, dentes não mais, ser estrangeiro não mais, incêndio interno, difícil de apagar. Um dia vem atrás do outro e as saudades se fantasiam de carnavais e posts de facebook, mensagens indiretas e frágeis de seres também fragilizados, cinismo explícito, ausência de coragem, sensatez em aridez. Foto em preto e branco. Eu tenho um compromisso com a vida, foi com ela o pacto feito pelo cultivo à alegria, mas por hoje eu o quebro. Por hoje eu me dispo da roupa de guerrilheiro para mostrar um pouco que sou também constituído de fragilidades e inseguranças, mas informo: POR HOJE, SÓ POR HOJE. Porque quando os caminhos mudam a gente tem o direito a tentativa de aprender a andar de uma outra forma, de construir uma outra maneira de andar que não aquela em que tentei segurar a tua mão, como aquela que me fez tímido te roubar um beijo entre carros, gentes, lojas e outros amantes, como aquela que me fez economizar dinheiro para te comprar flores em um dia de chuva, pés enlameados, roupas molhadas mas as flores intactas. Teu riso lindo. Eu não te escrevo, eu não te escrevi, eu não vou chorar. Eu rio ao lembrar de teu riso também tímido, eu rio ao lembrar de teu corpo faceiro provocando o meu, eu rio por te ouvir tanto falar e só pensar em te ter em meus braços, eu rio de tanto que esperamos e nos debruçamos um ao outro em histórias, estórias, danças e até lágrimas, bar fulerage, cidade suja, fumaça, muita fumaça… fumaça me traz a incerteza do que se vê, porque embaça, confunde, irrita os olhos e provoca o desejo de ver de forma mais límpida, há fumaça entre nós, sempre houve. Nós somos o que sobrou da luta entre distância e proximidade, somos um não lugar, pura abstração somos um ao outro, um retrato, um número, uma memória, mas somos. Sim nós somos. Dias atrás sonhei com você, você chegava em uma bolha, algo como redoma, depois você se transformou em sabonete molhado, metáfora mais do que lógica para se falar de nossa estória, porque em mim sempre houve a tentativa de te segurar e você sempre foi uma coisa molhada e escorregadia, água corrente. Nobre, muito nobre não ser água parada, Manoel de Barros já diz que “liberdade caça jeito” e embora eu nunca te tenha sido prisão, a minha liberdade te causa medo do aprisionamento (penso eu!) Fumaça, fumaça, fumaça… que a limpidez nos chegue, que permaneçamos a partir de amanhã alegres, sim, amanhã, porque hoje eu tenho o direito de ser triste, SO POR HOJE, sim eu tenho esse direito. Ah… estou ouvindo o Hélio Flanders cantando “Me acalmo danando” de Ângela Rorô, você já percebeu como essa música é linda?

domingo, 25 de outubro de 2015

"ESCREVO-TE ESTAS MAL TRAÇADAS LINHAS..." Estou há alguns dias movido pelo desejo de manifestar escrita. Essa coisa de escrever sempre vem com um misto de incerteza, medo ou retração, como algo que depois de solto no mundo não mais se prende, não mais se apaga, talvez até se ressiguinifique, mas é lançado, grafa tempo e espaço, vira memória, e depois de virar memória (... calma...talvez não vire memória, refletindo mais um pouco desconfio que não é uma questão de virar memória, porque mesmo antes de sair de mãos e mentes, já é memória.) Não há mais como construir o caminho de volta. Li recentemente, muito recentemente a biografia de minha ex professora de balé clássico Wilemara Barros. (Aqui, nesse inicio de escrita soltei o computador, deitei, bebi dois copos de água, contei meus livros, achei que fosse bobagem escrever, desisti.) Escrever é um ato de partilha, coragem de bicho. Escrever sobre alguém, sobre a história de vida de alguém é cavar espaços para reconhecer o que se é enxergando-se no outro. Refletindo um pouco mais, retomei as mãos o computador, tirei toda a roupa, deitei na cama, pus Maria Callas na vitrola e cuidadosamente fui movimentando me por essas letras que na rapidez da digitação parecia me a movimentação de um balé, um balé de dedos. Nada mais propícios a imagem e a sensação ja que é de dança que se escreve, de quem faz danca, de quem é danca. É difícil definir a razão dessa escrita, mas sei que é preciso escrever, pois essa leitura me inquietou e me mecheu, como água quente jogada em bicho que estava dormindo, como buraco que se abre sobre pés, como casa que cai, como vida que se acaba inesperadamente. Wilemara Barros é uma mulher incrível (me perdoem se parece piegas ou lugar comum a expressão através da qual me refiro a pessoa de Wilemara Barros), mas ao ler a Biografia de Wilemara, a sensação de incredibilidade do ser humano que a habita me salta a alma, me enebria os sentidos e me treme mãos. Garganta seca, nenhuma saliva, nada de cuspe. Conhecer essa mulher fantástica, bailarina de profissão, menina de periferia, ousada, corajosa, não é tarefa muito fácil, pois Wilemara é tímida, fala pouco, observa muito, seu conhecer se confunde com o seu ser, ambos são imensos, como céu. Me sinto nuvem, espaçada... se adjetivo Wilemara como céu, adjetivo a todos que foram e que são seus alunos: nuvens...pois enquanto professora Wila é abarque, possibilidade, faz chover, molha...com Wila eu tambem chovi, ainda que como sereno leve, garoa, gotículas. Lembro com muita nitidez de Wila nos corredores do Theatro José de Alencar na época do Colegio de Danca do Ceará, fui aluno da escolinha de rapazes do Professor Flávio Sampaio que funcionava naquela instituição. A escolinha de Flávio proporcionava aulas de balé clássico para rapazes que tinham o desejo de aprender a técnica clássica. As aulas iniciavam pontualmente as sete da matina, finalizavam por volta das nove, momento em que iniciavam as aulas dos alunos do Colégio de Dança do Ceará, foi nessa época que vi Wila pela primeira vez, foi nessa época também que pela primeira vez tive o privilégio de ser aluno da Diva da dança cearense (não confundamos a Diva da dança Wilemara Barros com as divas do rebolado da world music) fato que me deixou tocado, apaixonado pela danca classica, embora sempre tenha tido a noção de que aquela tecnica nunca seria por mim desenvolvida a contento, pois nunca tive fisico privilegiado, sempre fui um jogador de futebol em se tratando de alongamento e outras possibilidades que a tecnica classica exige. Mas, ainda assim, Wilemara me disse ser possível dançar e através dela desenvolvi muito apreço e paixão por aulas de balé clássico. Mas não é sobre isso que eu deveria estar aqui escrevendo, dessa fase o que me ficou na memória foi mesmo a figura ímpar de Wilemara Barros, o cabelo, a cor, os óculos, os saltos, os mini shorts, as mini saias, as bolsas, o andar, o olhar... e o silêncio... Sim, Wila sempre foi muito silenciosa, coisa de quem sabe demais, coisa de quem tem asas, coisa de quem é céu. Fui coreografado por Wila, música de Tom Jobim, academia Bailart. Nunca pensei que teria em algum momento, por menor que fosse, a confiança dessa magnífica professora em executar alguns passos por ela criados, passos ousados para um sapateador desastrado. Havia um chapéu, um paletó, uma ideia de espaço na cabeça dela, no meio disso tudo havia uma generosa injeção de coragem e incentivo vindo de sua parte. Dessa época, foi essa injeção e construção do possível para uma danca em mim, o que me fez ter coragem de dizer para mim mesmo que eu era uma pessoa de dança. Isso devo a Wila. Quando falo de dança, falo da possibilidade de uma dança outra sem os amados sapatos de sapateado nos pés, que me foram calçado por Valeria Pinheiro. Ao ler a Biografia, revivi, ao falar do DEVIR de Fauller na conclusão do Colégio de Dança do Ceará, reconheci me por muitas vezes acompanhando aquela trajetória, pois estava la, ao lado dos grandes, dançando como bailarino convidado no trabalho de Valéria Pinheiro, dividi as coxias com Wila. Pausa, visto cueca, procuro o programa da noite da apresentação, sei que era amarelo... não recordo o nome do programa. Busco, rebusco... não encontro. Volto para a cama e olho o computador... "jamais enviarei isso para Wila". "Por que Wila é sempre tão doce, atenciosa e delicada comigo? Mas Heber, não é só com você, Wila é assim!" Meus pensamentos. Água, mais água, café, pão, biscoitinhos doces...grito do quarto após me trancar novamente e tirar toda a roupa :"mãe, a senhora pode me fazer um chá?" Tenho a ingênua sensação de que para escrever sobre Wila, a nudez seria uma porta de acesso, porque se Wila é céu, se sou nuvem, se me molho, se Wila me choveu, Wila me deu nudez, me fez tirar roupa e me fez trocar de roupas. Retornando - agora de bruços no chão de madeira do meu quarto, excitado - Ano passado recebi uma mensagem do marido de Wila, meu querido Fauller, pessoa que tenho extrema admiração, que me e uma referência, que me é modelo, que me excita a criar, que me desafia, que me instiga, que me arrebenta. Na mensagem me convida para uma noite de performances em homenagem a Wilemara Barros pelos seus 50 anos de idade no Palco Principal do TJA. No momento achei que era brincadeira, como eu, um sapateador desajeitado, sem muitas possibilidades físicas, iria me apresentar para homenagear a maior bailarina classica de Fortaleza? Não levei muito a sério, até sorri depois de desligar o computador, e naquela noite muito aflito eu não consegui dormir direito. Comecei a realizar que realmente o convite havia sido feito a mim e que eu teria que fazer algo, pois era da Wi lemara Barros que se tratava. Dor de barriga, suor noturno, medo, "o que as pessoas vão dizer?" Por que eu? Organizei minha performance como pequenos bilhetes, coisas que eu gostaria de ter dito a Wila ha muitos anos, desde a época que foi minha professora de balé na escola de rapazes, havia coisas a serem ditas desde a época em que havia me coreografado na academia Bailart, desde a época em que nos encontramos pelos corredores da Boite Divine, desde a época em que foi minha professora na primeira turma do Curso Técnico em Dança... eu sempre tive muito o que dizer a Wila, porque sempre fui muito grato aos olhares, aos entendimentos, aos incentivos que dela vinham não só a mim, mas a todos os que juntos de mim sonhavam em ser bailarinos. Ler a biografia de Wilemara, me fez rever a própria vida, minha trajetória pessoal, artística, sexual e hominidea. Finalizei a leitura aos prantos, olhando as fotos, com as mãos tremendo, soluços me invadindo a garganta, boca aberta no travesseiro, mãos geladas... E me calo, com a certeza e a dívida de muitos dizeres a Wilemara Barros, o maior deles é o de muito obrigado, obrigado por ter sido minha professora, por ter sido minha coreógrafa, por ter me injetado a possibilidade de uma nova danca, por ser tão calada e saber tanto, por ser corajosa, por ter corrido em busca de todo sim que lhe entregaram com o um não. Wi lemara Barros é a própria dança, não faz dança porque é dança. A você minha querida Wila, muitos passos, muita vida, muita música, que minha dança, que também é tua, possa servir a ti sempre que me couber, enquanto tu fores alcançável. Com amor, carinho e gratidão. Heber Stalin

terça-feira, 25 de março de 2014

Modernidade e Pobreza: Algumas simples, bem simples considerações.

Fortaleza é uma cidade conhecida e reconhecida como uma das cidades mais perigosas do mundo, há uma esteria urgente de criminalização às pessoas pobres, que geralmente são estigmatizadas como os motores da violência urbana, quando na verdade o ato de gerir violência perpassa também, e se duvidar em proporção semelhante, a classe dominante. O pensamento de que somente os pobres cometem crimes e violência seria no mínimo inocente e ingênuo, além de que, esse pensamento é um reforço às afirmativas de que os pobres é que são a escória do mundo. Dessa forma é preciso se levar em consideração o real processo que faz com que estejamos divididos em duas classes, a classe operária e a classe burguesa. Não há tempo suficiente para traçarmos uma discussão aprofundada sobre a construção histórica e social dessa relação, mas deixaremos algumas pistas para afirmar um lugar mínimo de um pensamento que dialoga com os processos de desalienação. O discurso sobre modernidade, tão atual no mundo contemporâneo, faz pensar que todas as coisas são acessíveis para todas as pessoas, quando na verdade o que se estabelece como modernidade é ainda uma forma de se apartar pessoas a partir do seu poder de consumo, nada de novidade se levarmos em consideração o que acompanhamos dentro do desenvolvimento do capitalismo de sua gênese até os dias atuais observando as desiguais oportunidades impostas pelo sistema. Karl Marx em seu texto Valor, Trabalho e mais-valia de 1865, já informava que: “...para poder manter-se e reproduzir, para perpetuar a sua existência física, a classe operária precisa obter os artigos de primeira necessidade, absolutamente indispensáveis à vida e à sua multiplicação. O valor desses meios de subsistência indispensáveis constitui, pois, o limite mínimo do valor do trabalho.” (Mark,1865). Observa-se que em se tratando de consumo e trabalho há uma disparidade de alcance bastante considerável, pois quanto mais o homem (classe operária) trabalha, mais o homem (capitalista) se beneficia, o lucro da classe capitalista, é composto exatamente do que falta à classe operária. Dessa forma, a necessidade do ter, além de ser uma constante na vida do trabalhador enquanto ser social, é também uma eterna busca, é sede que não há água que sacie. Essa busca incessante pelo atendimento das necessidades humanas traz consigo estratégias que vão além das relações cordias de aquisição e estão imbricadas nessa busca uma série de outras questões, uma discussão sobre identidade, mídia e cultura por exemplo nos dariam minimamente uma base para entendermos os caminhos que estrategicamente usamos para o cumprimento de nossas necessidades. Um ponto bastante “legítimo” para se entender os níveis de modernidade tem a ver diretamente com a ascensão de um país dentro do cenário mundial de consumo e status. O Brasil se espreme, se sujeita a fazer parte de uma lógica competitiva que maltrata seus citadinos os colocando em situações de extrema pobreza e miséria que nem de longe dialogam com um real sentido do termo modernidade. Famílias em situação de extrema pobreza, pessoas morrendo de sede por falta de vontade política de se amenizar os problemas trazidos com as secas do Nordeste, assaltos, assassinatos e serviços públicos precarizados e sucateados; nem de longe esses quisitos dialogam com um conceito de modernidade que leve em consideração o bem-estar de pessoas, sem falar no desregrado sucateamento do patrimônio público das cidades, demolições, desocupações e total desrespeito ao povo brasileiro em detrimento de grandes eventos como a Copa do mundo, Olimpíadas, Copa das confederações dentre outros. Não podemos ser complacentes com a assinatura de uma modernidade que desapropria pessoas de suas histórias de vida, de suas cidades, de seus nichos de convivência, essa forma de se legitimar a modernidade não é trangressora e sim regressora, pois assassina vidas, árvores, pessoas, causa doenças de várias ordens, propõe a loucura, o desespero, a tristeza, a angústia, a incerteza, um amanhã incerto. O que está implicito nesse discurso de modernidade é um processo de globalização que em hipótese nenhuma é benéfico ao Brasil, pois o jogo de troca e lucro a título de globalização é sempre injusta. O Brasil não é uma grande potência financeira, seria ingênuo pensar que nessa perspectiva há equidade e igualdade, há sempre um maior que fala mais alto, há sempre a força do dinheiro que dita as regras, como disse o poeta bahiano, o que há no fim das contas é “A força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Seguindo a lógica do capital, quem tem mais manda mais, quem tem menos não manda, tenta negociar, mas no fim das contas: Obedece. Stuart Hall em seu livro “A Identidade cultural na pós - modernidade” faz uma discussão sobre as problemáticas do mundo contemporâneo e dentre outros importantes pontos traça um panorama do que se imbrica na discussão sobre modernidade e identidades na atualidade, em Hall: “Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem flutuar “livremente”. Somos confrontados por uma gama de diferentes identidades (cada qual nos fazendo apelos, ou melhor, fazendo apelos a diferentes partes de nós), dentre as quais parece possível fazer uma escolha. Foi a difusão do consumismo, seja como realidade, seja como sonho, que contribuiu para esse efeito de supermercado cultural” (HALL, pá. 75). Quando Hall aborda na passagem do texto que a escolha nos parece uma possibilidade a todos, informa que aparentemente o mundo vive em plena igualdade. O que acontece na realidade é que as escolhas são determinadas por fatores sociais e históricos, não dá para acreditar que o mundo oferece oportunidades iguais a todos, essa é a máxima do sistema neoliberal, a lei do mercado livre, que nos sufoca e nos é perverso. O que queremos dizer é que da mesma forma que o Brasil entra em negociações que o deixam em situações subalternas frente a outras potências mundias ( Japão e EUA), as pessoas também estão sempre vivendo essa relação no seu cotidiano, de exploração, de opções injustas. Sabemos claramente que uma política publica de educação por exemplo não coloca as pessoas em nível de competição igual, ou ainda somos ingênuos de pensar que um aluno da rede pública tem as mesmas possibilidades que um aluno da rede privada? Em se tratando de educação básica isso é um dissenso. É discurso de Liberais. Ainda pensando sobre a modernidade e sua relação com o aumento da pobreza, é imprescindível que estejamos atentos para as questões relacionadas à política de transferência de renda do governo federal. Há uma histeria cega e louca que criminaliza a política de transferência de renda em detrimento da afirmativa de que os benefícios têm incitado uma preguiça ao trabalho. Essa afirmativa é perigosa, pois os benefícios de transferencia de renda – ainda que tenham inúmeros problemas – foram uma maneira de se retirar milhões de pessoas das situações de extrema pobreza e trabalho escravo assim como reavivar possibilidades inerentes à auto-estima. A Socióloga Amélia Cohn, foi assessora de projetos sociais do Governo Lula e foi uma das responsáveis por estruturar o Programa Bolsa Família junto ao BID. Durante alguns anos trabalhando ao lado do então presidente, recebia cartas de beneficiários do PBF, nas cartas os beneficiários relatavam e agradeciam o benefício, as cartas eram direcionadas ao Presidente. Amélia relata: “Em 2007, realizei um estudo para a Secretaria Nacional de Renda para a Cidadania sobre o Bolsa Família – comentamos sobre cartas, mensagens, recados e falas que ouvimos dos beneficiários. Uma delas era particularmente para Rosani: Uma mulher que lhe havia dito que com os 2,00 que haviam sobrado depois de fazer o rancho (as compras todas do mercado) com o dinheiro que havia recebido, ela havia podido comprar um batom, coisa que há muito tempo era seu desejo. E que isso era para ela uma grande felicidade. Nós (claro que não simplesmente por sermos mulheres) entendíamos muito bem a felicidade de nossa companheira, pelo lado da sua auto-estima; mas também estávamos plenamente conscientes de que da parte da opinião pública, nada mais condenável do que esse “gasto”. Para muitos, demasiados mesmo, essa dimensão da auto-estima, que para nós era inquestionávelmente intrínseca à cidadania e, por extensão, à democracia, é absolutamente invisível, ou mesmo inexistente.” (COHN, 2012) A modernida aos olhos da classe burguesa é uma inerente aos que consomem, essa forma de dialogar com o conceito de modernidade exclui a classe pobre e estigmatiza os desejos dessa mesma classe de se alcançar determinadas possibilidades importantes para a sua existência. Assim o discurso punitivo ao PBF e outros benefícios deve ser mediado, ainda que existam lacunas que a organização do benefício não conseguem cumprir. É bastante recorrente na fala dos que criticam o PBF a máxima de que as pessoas que o recebem “não trabalham porque não querem”, esse pensamento é alienado, pois não leva em consideração a realidade em sua totalidade observando as condições injustas de oportunidades na disputa pelo mercado de trabalho, segundo Cohn: “E o importante é que, embora vital para a sua sobrevivência, para essas pessoas com inserção precária no mercado de trabalho, ou com possibilidadesprecaríssimas de acesso à renda, essa fonte de renda não configura, ao contráriuo do que muitos pensam, uma escolha ao não trabalho.. Apresenta-se, sim, como uma alternativa fundamental frente à inexistência do trabalho como fonte de segurança da satisfação de suas necessidades básicas e de suas famílias.” (COHN. 2012). Reforçamos que é necessário dismistificar o Bolsa Família como um sustento de vagabundos, pois essa maneira de enxergar o programa é também uma maneira de culpabilizar as pessoas por serem pobres quando o que acontece de fato está grafado na história do país desde seu descobrimento, uma história marcada pela injustiça social, oligarquias, coronelismo, ditaduras religiosas que aumentam as desigualdades, e afunilam uma ascenção social aos que têm mais oportunidades. Não dá para discorrer sobre a relação modernidade e pobreza sem perpassar por questões relacionadas ao Programa Bolsa Família e a atual conjuntura da cidade de Fortaleza frente às pressões impostas pelo evento Copa do Mundo. O que se percebe é que há cada vez mais o aumento da classe pobre, a grosso modo: quem é rico cada vez fica mais rico e quem é pobre cada vez mais pobre, o ciclo da pobreza aumenta na mesma proporção em que o ciclo da riqueza diminui. Entendendo da importância dessa discussão para uma formação comprometida com as mazelas da questão social, nos ocupamos em nos deter sobre o imbricamento dessas questões em nossa cidade, claro que de forma bastante tímida, pois a discussão sobre a relação modernidade e pobreza é inesgotável, são muitos autores, muitos pontos de vista e muitas correntes filosóficas que a abordam de formas diversas. Sabemos que o curso de serviço social é hegemonicamente Marxista e acreditamos nas teorias de Marx a partir de seu método de observação crítico-dialético que é necessário entender a realidade através de uma leitura de conjuntura que leve em consideração o ser social em sua historicidade, essa leitura foi o nosso ponto de partida para o desenvolvimento do trabalho. Entendemos porém que para além da classificação de classes e desenvolvimento do capitalismo, o autor não viveu tempo suficiente para traçar discussões relacionadas a determinados temas, viveu em uma época na qual não existiam recursos tecnológicos, e-mails, computadores e a modernidade se estabelecia de uma outra forma. É no âmbito da não negação dos escritos e na totalidade do pensamento de Marx , na abertura subjetiva a leitura de autores como Hall e Bauman que pretendemos ampliar a discussão sobre o tema sugerido e nos propomos a dialogar sobre os conceitos de modernidade e pobreza. Para isso, nos debruçamos sobre a cidade, pondo em choque elementos que a partir do processo de transnacionalização do capital se legitimam na cidade causando um verdadeiro caos no desenrolar de seu cotidiano. O recurso escolhido foi a fotografia, pois essa estratégia chega de forma direta e impactante sendo uma ótima alavanca para se proporcionar o debate. Foram fotografadas as redondezas do Castelão, que é hoje o alvo de maior especulação imobiliária da cidade, uma casa simples de dois quartos, durante o período em que a copa acontecerá, será alugada por até 10,000,00. As reformas do estádio estão suprimindo a classe pobre que vive nos arredores, trazendo problemas relacionados ao saneamento básico, demolições, remoções e sem falar nas catástrofes de deslizamentos nos períodos de chuvas. O metrô da cidade também será abordado, mostrando as obras e o mau funcionamento, causando transtornos e em alguns casos complicando mais ainda o deslocamento outrora feito de ônibus. A Seca também será mostrada nas fotos de crianças que vivem nos interiores e que são cerceadas do direito à alimentação e uma vida saudável, muitas delas sendo sujeitas à situações de trabalho infantil, similar ao que acontece na urbe Fortaleza. A intenção primeira é ampliar o debate sobre a relação pobreza e modernidade e fazer refletir o posicionamento ético e político da formação e do profissional que estará em breve atuando nessas ambiências Concluimos com esse trabalho que é urgente uma discussão aprofundada sobre a cidade, sobre as pessoas, sobre o capital e estratégias de enfrentamento. É bastante doloroso nos perceber em um momento como esse (copa do mundo e extrema “modernização”) de mãos atadas, pois o desejo do povo não é o mesmo desejo do Estado. O que nos fica é a certeza de que nós, enquanto futuros asistentes sociais, teremos um trabalho grande frente ao caos que o sistema impõe, especificamente no caso de Fortaleza, pegaremos uma cidade cheia de contas a pagar, o preço de sediar uma Copa do Mundo é um preço alto, a inflação voltará com tudo, o desemprego, a miséria se estabelecerá ainda de forma mais agravante. È preciso ter claro que se hoje está ruim, após a copa estará pior. Dessa forma tecemos nossos agradecimentos ao Professor Renato Ângelo por nos ter colocado de frente a uma discussão tão necessária para a cidade, acreditamos que metodologias de ensino que colocam o aluno face a face com o seu futuro campo de trabalho são disciplinas marcantes e inesquecíveis. E que nunca nos falte o sentimento de rebeldia e o desejo de revolução. REFERÊNCIAS BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Tradução, Plínio Dentzien. Rio de Janeiro – Zahar 2001. COHN, Amélia. Cartas ao Presidente Lula – Bolsa Família e Direitos Sociais. Rio de Janeiro – Pensamento brasileiro 2012. MARX, Karl 1818 - 1883. O leitor de Marx. Organização de José Paulo Netto. Rio de Janeiro. Civilização brasileira 2012. VELOSO, Caetano. In Sampa. São Paulo 1978.