domingo, 10 de setembro de 2017

Dos dias de Setembro

Aqui dentro… um silêncio ensurdecedor. Tenho tentado nos últimos dias traçar estratégias que me abstraiam do escárnio da realidade. Como um cadeado de chave perdida, me sinto fechado, preso, emCADEAMENTO.
Entro em meu quarto e aparentemente tudo para. Uma sensação de que as almofadas dialogam com a escrivaninha e os tapetes tentam desestabilizar os calçados sobre eles repousados. Como uma grande brincadeira vista apenas em filmes infantis… disso eu sorrio, eu sorrio, balanço a cabeça negativamente sorrindo muito, corro para a cozinha… água, muita água, mais água. De volta ao quarto: Silêncio. Apatia. Segredos nas gavetas, meus barulhos pendurados em uma varanda como a me lembrar que, ainda que haja noite o dia traz riso. Quase pego os tapetes discutindo com os calçados. O que é a loucura? Onde mora a lucidez?
Mãos frias, olhos tristes, ressaca de dor vivida, não só minha, mas minha TAMBÉM, cismo, sou cismado com essa palavra. O “Também” é uma palavra perigosa. Linda… porém perigosa, pois trata de mais um, mais dois, mais três, mais trinta. Fazer parte de um “também” é fazer partilha, é par-tilhar, par – trilhar, par-tir-lar. Nessa ambiência eu me encontro. Ela me interessa. O meu interesse acaba creditando o “Também”. Tudo bem me rendo, preciso de você também! (Aqui sim, duplo sentido).
Em tempos líquidos, cercados de água por todos os lados, me atrevo a não perder a mania de ser inteiro, de ser sólido, mesmo que para isso eu precise, em algumas situações, ser mais do que pedra, precise ser rocha. Afinal… quem disse que o gelo não fere na mesma proporção que uma rocha? Me tome a primeira boia quem nunca pensou estar em sólidos e se viu perdido em águas. Afogado, afundado, encharcado, trêmulo, espirro, tosse, febre… mas limpo… muito limpo! (Aqui estou eu).
Ahhhhhh que vontade de andar de pés descalços em uma rua de calçamento, chupar dindin com as mãos sujas, tirar meleca do nariz e passar na roupa (daquela maneira que a gente faz e que nos enche de prazer), vontade de contar moedas, olhar as estrelas, correr um pouco a passos largos (também fazíamos quando crianças), sentar no meio-fio de pedra e comer broa, desejar um iogurte, imaginar como é o beijo na boca da pessoa desejada. Afirmo: Isso é mais do que necessário.
Hoje pela manhã ouvi um disco do Janeci, em uma das músicas ele solta: “A gente é feito para acabar… a gente é feito para caber”. Concordo com a primeira frase porque a lógica da finitude humana é inquestionável. Acho infeliz portanto a segunda frase, porque se fazer caber é se forçar a algo. Não. A gente não foi feito pra caber. A gente já chegou – ou já deveria ter chego – ao momento em que podemos identificar sem sofrimentos, culpas ou mágoas se cabemos ou não em determinadas situações, em determinados espaços, em determinadas vidas, em determinados empregos, em determinados bares, em determinados corpos, em determinadas sexualidades, em determinadas, determinadas, determinadas, determinadas… e inclusive nas não tão determinadas assim. (Não gente. Eu também não entendi muito!)
Ontem eu chorei, antes de ontem também… uma pela branca me faz chorar, lapsos de lucidez que se manifestam em minha mente me revivendo suor, riso, dentes, tatuagens… agressões delicadas de um amor que é meu TAMBÉM.
Junto ao meu amor eu tento entender o que é o caber, me pergunto de maneira sôfrega o porque da lucidez ser tão necessária em tempos tão sórdidos e caóticos. Onde está a lucidez? Acho que já perguntei, mas me digam: Como ela se manifesta? O que em mim, em nós é lúcido?
Refletindo sobre os primeiros dias de setembro me abato, me arrebato com as desestabilizações por ele propostas, me sinto tapete, me sinto calçado. Um entra e sai de gentes, carnavalesco que sou me visto de folião e abro o coração para as alegrias… algumas efêmeras, algumas apenas de aparências, mas todas potentes, em sua maioria sóbrias, das não sóbrias eu sorrio e tento não violentar a embriagues e nem me violentar ou violentar alguém através delas. Estar embriagado é um fazer parte da vida, da dança, da alegria… todas essas citadas aí acima.
Mania esquisita essa de ser gente. Que coisa mais desagradável essa do sentir, que vergonhoso chorar escondido, que constrangedor querer ser forte quando tudo o que se manifesta é fragilidade. Outra maneira muito feia é a de calar quando se precisa falar, sorrir quando se precisa chorar. Parar quando se quer seguir.
Por aqui eu queria dar alguns recados, pistas que provam, senão o meu amor, a minha intenção de amar. Por hoje eu queria sentar em silêncio e ver a lua, contar estrelas, dormir de rede, segurar a tua mão, te agarrar por trás e dizer que tudo vai ficar bem… porque existe um “para sempre” dentro de nossas possibilidades. Eu queria também poder olhar nos olhos dos que magoei (se eles existirem) e dizer que não foi intencional, que existe um pedaço de mim que é gente, nem tudo em mim é bicho. Dizer aos que me esperam e me esperaram que eu sou pássaro, que tudo que voa, que tudo que tem asa sou eu também… mas eu sinto, eu sinto, eu sinto, eu sempre senti. Eu sou um sentir! Eu sinto. Eu agradeço amor, eu agradeço Paixão e eu agradeço Tesão. Vou continuar te amando… vou continuar cuidando de vocês… eu vou te comprar um DVD porque te amo, eu vou te pagar uma cerveja Porque você me faz bem e eu vou te amar com o tempo, será inevitável… eu vou continuar comprando tua bolacha… aquela que você gostou… porque você se tornou especial para mim… eu vou continuar ouvindo – com restrições – o Janeci, pois você sabe como eu o acho bobo… eu continuarei sendo seu amante… porque a vida nos reservou esse lugar… eu continuarei a te visitar quando me quiseres porque entendi que em tua casa a porta estará sempre aberta a mim e ao meu corpo e meu tesão. Mas entendam: É possível que hajam impossibilidades… nenhum desses atos se legitimam apenas por mim.
Olhando para a almofada amarela da minha cama ela me alerta mais uma vez: Heber, Heber, Heber: Em matéria de viver não se pode chegar antes”.
Quase lúcido…mais água, mais riso… um pouquinho só mais de choro e um dormir juntinho de minha almofada amarela.








quinta-feira, 25 de maio de 2017

O sapateado em nós!


Todo ano, ao se aproximar o dia 25 de maio eu fico ansioso. Aquela ânsia de criança que deseja um doce do pai ausente, um presente da madrinha que vem de longe, ânsia de passar a mão na cabeça de cachorrinho novo, desejo de que algo se revele, algo inesperado, súbito, potente de alegria.
Passei o dia de hoje revendo com alegria, rebuscando em minhas memórias o encontro que tive com a arte do sapateado, o compromisso que assumi de forma espontânea e ingênua com a arte que me alimenta de alegrias e desafios cotidianamente.
Lembrei com riso no canto da boca e balançando a cabeça das inúmeras vezes que relembrei sequências de aulas em paradas de ônibus e estações de metrô, muitas vezes fazendo desses espaços verdadeiras salas de ensaio (quem nunca praticou uma sequência de sapateado à espera de um ônibus que atire a primeira pedra). Fortaleza, Rio, Sampa, EUA, Colômbia, África… tantos lugares!
Lembrei também de quando, em 2002 (se não me falha a memória), encontrei em uma sala de reuniões em Chicago nos EUA o sapateador Van Porter, que me viu com os sapatos de sapateado nas costas e me perguntou se eu sapateava, eu disse que sim e me pediu então que o mostrasse. Calcei o sapato e mostrei um pouco do samba que aprendi com Valéria Pinheiro. Aquele momento foi mágico, não sabia quem era Van Porter, não sabia do grande sapateador que ele era e quando lembro que me permiti “ter algo a mostrar” me sinto envergonhado, no bom sentido. Lembrei também das noites de insonia com Lane Alexander em quartos de hotéis ao longo do país, tínhamos mania de procurar espaços em hotéis para um pouco de prática do sapateado e criação de algumas sequências juntos!
O bom da vida é que ela segue e ela segue com um propósito, não segue à toa. Fiquei rememorando as aulas que tive com Acya Gray, Sam Weber e Diane Walker, por intermédio de Lane Alexander que também me ensinou sobre sapateado, vida, generosidade e amor.
Antes de tudo isso lembro uma quarta-feira fim de tarde nos arredores da Praia de Iracema em Fortaleza, no Teatro da Boca Rica o encontro com Valéria Pinheiro, seus olhos famintos a convidar para aulas, ali tudo começou. Ali tudo recomeçou, pois nosso “estar junto” vem de outras vidas. Certeza posta!
Reflito 1: Devemos amar o sapateado como possibilidade, acidental ou não, de encontros.
Cia VATÁ foi minha escola e minha universidade, o sapateado ali desenvolvido lançou-me a auto-desafios cotidianos, provações terrenas de desejos e descobertas que iniciam e finalizam na técnica de um sapateado que se mostra potente e íntegro porque se diz de forma peculiar, organizando o caos que pode ser entendido como reflexo da própria vida. Lugar de construção, trocas, aprendizagens, amores, medos e pequenas confusões. Traçados de vidas que se aglomeram a formar colchas de retalhos que propõem sentido único: a coragem.
Reflito 2: O sapateado agrega, congrega, prega, APEGA.
Atrevimento de dois: Cia. Do Barulho, primeira instância de criação em sapateado com Aspásia Mariana, estudos, tentativas, editais, um Mercado que não mais do que pinhões nos fustigava e cutucava dizendo que ali também havia amor. Partilha, parto, partida.
Reflito 3: Sapatear a despedida também é sapateio.
Entendi desde sempre que o sapateado poderia (sonho com isso) servir como mola de mobilização de pessoas, porque o sapateado é alegre e democrático, sua história vem de resistência a opressões e violações, é negro, é feminino, nasceu pobre e nunca achei justo que se tornasse propriedade de quem tem posses e pode pagar aulas em academias, viagens e festivais. Não. Não deve se manifestar apenas dessa maneira. Me incomoda MUITO que as pessoas o vejam, se infectem dele e ao encarar a realidade de sua aprendizagem (na maioria das vezes dentro das academias) se sintam frustradas. Ouço bastante lamentações de pessoas do tipo “sempre achei lindo, mas nunca pude pagar”.
Sabemos que nós sapateadores temos formações caras, cursos são caros, aulas são caras, viagens são caras, os próprios sapatos são caros, o acesso não se dá de forma simples e não acho que isso seja culpa dos profissionais, na verdade não irei me alongar nesse mérito pois não é esse o objetivo.
Reflito 4: É preciso propor a acessibilidade ao sapateado.
Acessibilidade tem a ver com a possibilidade, possibilidade vem de “possível”. O que estamos a fazer para tornar possível o acesso ao sapateado? Como o sapateado está na periferia? Refaço: Ele está? Acredito que em algumas cidades essa possibilidade aconteça de forma legítima, mas aqui em Fortaleza não há fomento para essa área da dança e isso me inquieta.
Hoje, fim de tarde, eu quis calçar o sapato e ir fazer aula, trocar aula em um bairro da periferia, esse foi meu desejo de hoje para comemorar esse dia tão bonito, súbito lembrei: Não há esse lugar! - Fortaleza é um lugar de não lugares!
Nunca coube, nunca consegui me perceber em Festivais competitivos. Um adendo: O fato de não caber não quer dizer que eu seja contra. Porém, há uma instância de criação para os Festivais competitivos que acho violenta, a perspectiva de me colocar na condição de “ser pior” ou “ser melhor” do que o outro me assusta, pois não acredito que esse lugar seja um lugar confortável, prefiro acreditar que não. Esquizofrenia. Maltrata, exclui, ignora, sem levar em consideração muitas vezes o próprio sapateado e sua história de nascimento, sua ontologia. Assim como a história de vida das pessoas que fazem as escolas de sapateado que competem… longa discussão…
Reflito 5: O que devemos amar é o sapateado em nós, não o prêmio em nós!
Eu serei sempre aquele que, embora calado e tímido, estará sempre na torcida pela popularização do sapateado. Já trabalhei em algumas academias de dança, local também que não me encaixo pois a instância de produção de sapateado em academias tem uma dinâmica produtiva, quantitativa e isso também me agride.
Me agride porque existe uma maneira de fazer sapateado nas academias que não tenho habilidade para executar. Tenho profunda admiração por professores de academias que conseguem montar um trabalho para uma competição por exemplo que deva durar 2 minutos e meio ou algo assim. Não consigo cronometrar o que meu pé quer dizer. Reforço: não estou dizendo que não acho admirável, estou dizendo que: Eu não sei fazer.
Reflito 6: Reconheço o sapateado como a possibilidade de ser inteiro!
Há um movimento no nosso país que tem instigado as pessoas a viverem Cias. De sapateado, isso é muito positivo pois nos faz pensar de forma agregada. Quando pessoas se juntam para sapatear a alegria parece se instaurar, permanece ali uma ambiência fluida de trocas que estão para além do som produzido pelas taps, é de vida que estamos falando ali, não só de sapateado. Isso é bárbaro, isso é de uma potência indescritível.
Eu gostaria de hoje solicitar aos meus amigos sapateadores que em algum momento pensassem suas ações em sapateado em benefício de algum segmento social que não fosse apenas a competição. Pergunto: Como o que fazemos em sapateado pode ser útil a alguém? A população idosa? À população de pessoas doentes em hospitais? À população de rua? À crianças vítimas de exploração de trabalho e sexual? À comunidades carentes de cultura?
Já pensaram em algum momento sobre o que mais podemos fazer com o sapateado que temos? Tenho me inquietado muito com isso e não estou falando de caridade. Abrir espaços, desflorar matas virgens, usar calçadas e praças, sair dos shoppings centers e dos grandes teatros ainda que por momentos breves.
Estou a falar aqui de devolver ao mundo o que o mundo de forma tão generosa nos deu ou que lutamos muito para conquistar. Particularmente ando muito cansado e sem interesse em viajar para dar aulas sem um propósito outro que não seja aquele baseado no princípio da agregação, partilha e entrega, papo.
Reflito 7: Para que(m) eu sapateio?
Devaneios disseminados, sigo pensando e repensando o sapateado como uma forma de estar no mundo, como uma forma de não andar sozinho embora eu reconheça que, aparentemente somos muitos, mas olhando de perto somos bem poucos.
Eu gostaria de hoje poder abraçar aos amigos/ídolos do sapateado brasileiro que encontrei ao longo de minha caminhada, reforço que o desejo pelo encontro é uma constante em meu coração.
Obrigado a Cia. Dos Pés Grandes por ser o motor de incentivo, alimento do meu desejo e da minha alegria, sujeitos cúmplices da partilha deliciosa da alegria e afetos que o sapateado propõe.
Obrigado à Cia. VATÁ, por ser casa, lugar que retorno sem precisar bater na porta ou perguntar se “posso?”
Algumas referências:
Cintia Martin, me encontrou no Rio de Janeiro, papeou, sorriu, abraçou e acolheu, obrigado por você ser sempre tão generosa, ouvinte, atenciosa… obrigado pela sua leveza, passarinho.
Steven Harper, querido, abridor de portas, obrigado pelo TAP in Rio, por confiar no meu trabalho, por ser gentil, por possibilitar tantos jovens a se tornarem professores no Festival que é a maior vitrine do sapateado no Brasil.
Adriana Brunato, pela ousadia da CBS – Cia. Brasileira de Sapateado – tempos lindos e inesquecíveis, não há como esquecer a sua trajetória.
Bia Mattar, amiga, mestra, inesquecível as nossas aulas em Floripa em tempos de paixão, quando tudo era azul, olhos e mar.
Juliana Castro, obrigado por Brasília sapatear… Tribo das Artes… saudades… bons tempos!
Julhiana Garcia… que sapateia um Ribeirão de todas as cores...
Bianca Morena e Luciano Oliveira, gentileza… alegria e luta por um Recife que sapateia.
Lane Alexander, Katherine Krammer, Lynn Dally, Max Pollack, Roxane Semadeni, Acya Gray, Van Porter, Sam Weber all my love to You guys… always… all my gratitude.
Trabalhei com pessoas incríveis, profissionais que tenho imensa admiração, aprendi e aprendo muito com vocês, por isso também agradeço.
Agradeço a todas as escolas de sapateado que me convidaram, que me convidam para ministrar workshops e cursos, não listarei aqui para não correr o risco de esquecer e cometer injustiças.
E não poderia deixar de ser diferente, Valéria Pinheiro, enquanto houver vida haverá nós! Te amo com imensidão de universo e leveza de nuvem. Mãe, amor.